Destino

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Escuro. Muito escuro.

Onde eu estou?

Abro os olhos e me vejo diante do portão de uma casa. Subitamente, a memória invade minha mente.

Raquel está ali. Ela move seus pequenos lábios rosados. Suas mãos estão dentro dos bolsos do casaco. Seu cabelo preso em um coque. Nós conversamos. Então ela se aproxima, seu perfume brinca em minhas narinas, seu toque arde em minhas costas, e me beija. Em seguida, ela se afasta e, com um último olhar, desaparece no interior da casa.

Estou na frente da casa dela. O céu está escuro. Absurdamente escuro. Estou só. É difícil permanecer de pé. As articulações estão enferrujadas. O vento frio invade o interior molhado de minha jaqueta de couro e eu quero cair.

Mas eu não caio.

A casa parece abandonada. A grama do pátio é alta e frondosa. O portão está trancado, assim como as janelas.

O que eu estou fazendo aqui?

No fundo, eu sei.

Não há ninguém lá dentro.

Ela se foi.

Ela está morta.

Eu sei.

Mas quem sou eu?

Eu sou ele,

Ou ele sou eu?

De alguma forma, não parece ter importância.

Distante de um passado no qual eu era livre. Diante de um futuro que não posso tocar. Eu permaneço aqui, de pé, encarando a escuridão.

Enfim, minha mão se eleva e levanta o trinco do portão. Ele se abre com um rangido e eu atravesso o pátio até a porta.

Ela está aberta e eu entro.

Encontro luz e calor. Raquel me cumprimenta na entrada. Ela segura minha mão, puxando-me para dentro. Está sorrindo e eu a sigo até a sala de estar, onde então me envolve com os braços, aproxima seu rosto do meu e, como neblina, dissipa-se no ar, deixando para trás uma sala escura, fria e arruinada.

Largo a mochila sobre o sofá empoeirado e olho ao redor.

Para onde você foi.

Para onde você foi.

Para onde você foi.

Minha cabeça dói e eu a seguro.

Como pode ter certeza de que isso é real, parceiro?

Cale a boca.

Talvez você seja louco. Talvez, nesse exato momento, você esteja babando no canto escuro de alguma clínica para doentes mentais, com tantas drogas em suas veias que jamais retornará à realidade.

Cale a boca!

Uma súbita pontada de dor atinge meu abdômen, os joelhos dobram-se como folhas de papel e eu desmorono.

Está frio. Tão frio.

Minhas pálpebras pesam toneladas.

É sofrível demais manter os olhos abertos.

Lentamente, eles vão se fechando. Lentamente, escuridão se fechando de todos os lados.

Então eu a ouço.

Ela surge de algum lugar.

Uma silhueta desajeitada que se deita sobre mim.

E no estômago da escuridão, nós dois nos tornamos apenas aquilo que nossos desajeitados toques podem definir, sangrando e sorrindo sobre o túmulo do mundo.

Sua voz como carne palpitante enlaça seus ossos e ouço meu nome, e o pulsar de um coração que se aperta contra o meu, na primeira colisão de buracos negros jamais testemunhada, e ela não produz nada, nada além de uma impossível faísca, num universo de sombras.

Não se preocupe.

Eu vou cuidar de tudo agora...

...parceiro.

Diário dos Mortos-VivosWhere stories live. Discover now