9 de Agosto - Retorno à Escuridão

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"9 de Agosto de 2017

Os gritos dos mortos elevavam-se de todos os lados, através das paredes, atraídos pelo barulho do alarme, todos vindo em nossa direção. Suas sombras se projetavam na parede diante das portas de vidro do mercado à medida em que entravam sem parar, investindo pelos corredores, tropeçando nos corpos no chão e seguindo em frente.

— Entrem! — gritou Rogério, e começou a nos empurrar para dentro do depósito, que estava escuro como o fundo do oceano. — Vão, vão, vão!

Ele foi o último a entrar, e enquanto puxava a porta, podíamos ver pela fresta as criaturas se aproximando à toda velocidade. Assim que a porta se fechou, no mesmo instante, ouvimos eles do outro lado se chocando contra ela. Saltamos para trás, aterrorizados, imaginando que derrubariam-na e nos pegariam.

— Relaxem — disse Rogério, ofegante, iluminado pela lanterna. — Eles não vão derrubar essas portas. São grossas demais. Vejam. — Apontou para a fechadura. — Ela sequer está trancada e os imbecis não conseguem abrir.

— Prefiro não arriscar. — Helena foi até ela e trancou-a.

— Mas, Jesus, essa foi por pouco.

— Sim. Mais um segundo e teríamos...

— Não sei se perceberam — disse Levi. — Mas precisamos dar jeito de desligar esse alarme antes que ele convide cada maldito zumbi dessa cidade pro jantar. E caso não entenderam, nós somos o jantar.

— Tem razão.

Helena investigou os arredores com a lanterna.

— Rogério, ali — disse, e apontou para uma caixa metálica presa à parede, logo acima da porta.

Rogério apontou o revólver para ela e disparou.

Após uma pequena explosão, o interior dela pegou fogo e o alarme morreu.

Os violentos ataques à porta, no entanto, continuaram. O som dos socos, cabeçadas e investidas daquelas coisas preenchia o depósito escuro.

— Bom, e agora? — falei.

— Pegamos a comida e encontramos uma saída.

— Ótimo.

Contudo, após duas horas vasculhando cada centímetro do depósito, chegamos à amarga conclusão de que não havia outra saída. Havia outras portas, uma enorme que servia para os caminhões entrarem com as mercadorias e outra menor, ao lado dessa, para os funcionários, mas ambas apresentavam o mesmo problema da que havíamos usado para chegar ali: estavam bloqueadas por dezenas de mortos-vivos.

— Merda! — praguejou Rogério, coberto de suor, deixando-se cair sobre meia dúzia de paletes empilhados. — Não tem jeito. Já olhei cada buraco de rato desse lugar. Não tem como sair.

Helena apoiou a lanterna em um local que iluminasse onde estávamos, formando uma pequena ilha de luz em meio a um oceano de escuridão, e sentou sobre um monte de fardos de arroz. Sentei-me ao seu lado.

— Infelizmente é isso mesmo — disse ela. Gotículas de suor percorriam as linhas de seu pescoço bronzeado. — As janelas são pequenas demais pra passarmos, e as portas, bem...

— Alguma coisa no segundo andar? — perguntei.

Rogério passou as mãos pelos seus ralos cabelos loiros.

— Está cheio de papel higiênico e bebidas. Tem janelas, mas não dá pra abrir nenhuma. Estão emperradas, as desgraçadas. Claro, a gente pode quebrar os vidros e passar por elas, mas só vamos encontrar uma descida direta pro inferno. Não tem nenhum lugar seguro pra pular, o prédio mais próximo está longe demais e os desgraçados estão pululando por todo lado lá em baixo.

Diário dos Mortos-VivosWhere stories live. Discover now