CAPÍTULO 3

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TRÊS


Meu primeiro contato com o sobrenatural não foi algo que eu goste de falar muito, porém, é quase inevitável não citar de vez em quando, diria que é minha penitência de alguma forma.

          Agora é um tanto quanto diferente, mas não deixa de ser a mesma sensação. A falta de informação, o sentimento de impotência, o modo em que eu nunca sei quando algo vai acontecer. Também não sou um especialista — nem sei se existe alguém que porte esse título sem parecer idiota ou aproveitador — diria que estou vendo o mundo de um modo diferente, mas sem deixar de saber que ele é o mesmo e que sempre foi assim.

          Voltando ao ponto principal. Eu saí daquele beco atrás da lanchonete e andei de volta ao meu apartamento, onde acreditei que Koa estaria. No caminho, andando pela mesma praça na qual conversamos no meio-dia, notei como ela estava do mesmo jeito que quando a vi pela primeira vez, não é engraçado? Todas essas pessoas continuam lá, estão lá, vivem suas vidas, comem, riem, bebem, trabalham e dormem, mas não sabem de nada – estão piores que um bastardo da neve. Elas não sabem o que está ocorrendo, é como se não soubessem que estão sendo filmadas ou algo assim. É desconcertante.

          Ao longo em que caminhava, avancei lentamente pela calçada, avistando o conjunto de habitações em que um dos apartamentos me pertencia por pelo menos este mês. O conjunto é formado por dois andares, sendo o meu apartamento no segundo; segui pelas escadas, indo da seção A até a B, onde meu quarto, número doze B, se encontrava. A porta estava meio encostada, então a confusa ideia de estrangular um gato surgiu na minha cabeça.

          — Koa? — perguntei em voz baixa.

          Sem uma resposta imediata, eu abri a porta e vi como a escuridão dominava o recinto, diferente dos demais apartamentos, onde obviamente havia luz para o horário de pôr do sol em que nos encontrávamos. Avancei cuidadosamente, esperando encontrar o pequeno Koa comendo o pudim da geladeira como um animal selvagem. Porém, eu avancei até vê-lo mais ou menos no que deveria ser considerada nossa cozinha. Sentado, como se aguardasse meu retorno.

          — O que tá fazendo? — perguntei ao chegar mais perto.

          Ele não olhou para mim e apenas levantou a cabeça na altura da janela, o suficiente como para ser iluminado pela luz do ocaso. Em seguida, pude ver a colher suja com algum tipo de doce em um pote na frente dele, no criado mudo. Era pudim.

          — Pudim? Sério? — questionei.

          — Jamais levo pudim na brincadeira — respondeu ele com um olhar determinado.

          — Então pudim é a única coisa que leva a sério? Gostaria que levasse nossa amizade mais a sério também.

          — Pudim. Basta você suprir minha necessidade de açúcar com pudim e nossa amizade será tão sólida e verdadeira quanto o pedaço restante na geladeira.

          — Ainda há alguma coisa nessa geladeira que você não comeu? Espere, sólida? Mas pudim é igual gelatina.

          — Nem tudo é perfeito como o pudim, Erick, você já devia saber.

          — Me pergunto se o mundo concorda com você. — Eu ficaria pasmo se descobrisse que sim.

          Fui até a geladeira, abri e, em seu interior, tomei o pudim restante — o qual assumirei, mesmo não sendo a verdade, que Koa o deixou para mim — e sentei-me ao seu lado na janela. Enquanto saboreava cada pedaço daquela sobremesa, o sol se esvaía pela janela, e a noite vinha lentamente.

Hábitos Decadentes - Exílio AberranteOnde as histórias ganham vida. Descobre agora