9 de Agosto - O Mercado

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"9 de Agosto de 2017

— Acredita mesmo nisso?

Levi me encarou com um esgar. Estávamos num canto da padaria, sentados sobre o cobertor, devorando um pedaço de pão que recebemos de Helena minutos antes.

— O Osvaldo disse que ouviu no rádio. O exército está limpando as cidades. Logo vão chegar aqui.

Por um minuto acreditei que Levi ficaria animado com a notícia. Mas é claro que não.

— Não imaginei que fosse tão ingênuo, parceiro.

— Como assim?

— Ele não disse que estavam recrutando qualquer um que pudesse segurar uma arma? O que acha que isso significa?

— Que... Toda ajuda é bem-vinda...?

Sorriu.

— Nem perto. O que isso quer dizer é que eles estão tão desesperados que estão jogando armas nas mãos de qualquer catarrento ou debiloide capaz de segurá-las. Acha que um "exército" desses tem alguma chance de fazer algo contra uma horda de zumbis? O que eles vão conseguir é engrossar a fileira dos mortos e ferrar com as nossas vidas.

— Mas ele disse...

— Ele disse o que ele quer acreditar, só isso. Ele é velho. Não é capaz de processar algo tão inacreditável. Não viu como a coisa está realmente feia. Não entende a dimensão do que está acontecendo lá fora. — Levi deu uma mordida no pão e, com a boca cheia, continuou: — Por isso, não seja estúpido pra cair nesse conto de fadas de que o exército vai aparecer com tanques de guerra e helicópteros e afastar o bicho papão. Não há ajuda nenhuma vindo. Não tente fugir dos problemas, parceiro. Não espere que alguém vai surgir pra salvar a Raquel por você.

— Droga, já entendi, já entendi...

Esfriei completamente por dentro.

Por mais que eu não quisesse ouvi-lo, o que ele dizia fazia sentido. Todos aqueles seres naquele estacionamento... Não consigo ver exército algum sendo capaz de confrontar algo como aquilo.

Merda. Droga. No final, não há esperança mesmo. Preciso chegar até Raquel e depois descobrir o que fazer. Até lá, não vale à pena pensar em salvação ou algum exército estúpido. Concentre-se no agora. É o que me resta.

Pouco tempo depois, Helena e Rogério apareceram. Os dois vestiam uniformes do controle de animais: calça social escura e camisa de gola verde, além de grandes mochilas nas costas, pra trazer a comida. Helena também estava com grossas luvas que iam até seus cotovelos, provavelmente usadas pra lidar com cães raivosos. O revólver encontrava-se aconchegado no cinto de Rogério.

Levi se aproximou dele.

— Que tal me devolver o revólver agora?

O homem cuspiu no chão, perto de seu tênis.

— Sequer sabe usá-lo, pivete?

— Por que não me dá ele que a gente descobre?q

— Não, acho que vai ficar melhor comigo. Tenho treinamento, entende? E, como dizem, crianças não devem brincar com armas.

— Levi — falei. Precisava acalmá-lo. — Deixa pra lá. Pega o martelo.

Entreguei pra ele, que guardou-o no interior da jaqueta de couro. Podia ver as marcas de dente nela, de quando fomos atacados na avenida.

— Estão prontos? — perguntou Helena, metendo-se entre nós. — Toma.

Ela tirou uma das luvas que estava usando e me entregou. Enfiei-a na mão esquerda. Seu interior estava quente e úmido.

Diário dos Mortos-VivosWhere stories live. Discover now