8 de Agosto - O Grupo

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"8 de Agosto de 2017

Está quase anoitecendo. Tentarei terminar o relato do que aconteceu mais cedo antes que o sol se ponha e eu fique sem luz.

Cerca de 20 minutos após a conversa entre Levi e a garota, Helena, alguém apareceu.

— Eu não te disse, parceiro?

Um sujeito parrudo, de rosto vermelho e cabelos loiros, surgiu da porta e se dirigiu à jaula de Levi. Um de seus olhos estava inchado e não parecia de bom humor.

— Escuta aqui, seu merdinha — disse o homem de imediato, deitando um olhar feio nele. — Eu vou te soltar e você vai vir quietinho comigo. Se tentar alguma coisa, vou quebrar seu pescoço sem pensar duas vezes. Entendeu?

— Sim, senhor — respondeu Levi, sorrindo.

O homem meteu uma chave no cadeado e abriu a jaula. Levi saiu agachado e, ao chegar do lado de fora, alongou-se com uma mão nas costas. Estava se preparando para levantar quando o punho do sujeito caiu sobre seu rosto e acertou-o no lábio inferior.

Levi tombou sobre um joelho, uma mão no local ferido.

— Isso é pelo meu olho — disse o homem, sorrindo com seus lábios grossos.

Levi também sorriu. Sangue manchava seus dentes.

— Não devia ter feito isso — disse, então atacou.

Mas antes que pudesse alcançá-lo, o homem puxou um revólver, meu revólver, e apertou o cano em sua cabeça.

— Levi! — gritei. Aquele imbecil ia acabar se matando.

— Quietinho, entendeu?

— Entendi, entendi. — Ele levantou as mãos, os olhos em chamas.

— Muito bem. Agora, pra trás.

Ele se afastou.

— Começamos com o pé errado — disse Levi, simpático. — Pode me emprestar as chaves, grandão?

— Huh? Pra que?

— Soltar uma fera.

O homem franziu as sobrancelhas e jogou as chaves para Levi. Ele veio até onde eu estava e abriu minha cela.

Sai de quatro, com pontadas de dor através da espinha.

— Me sinto com 109 anos — falei, espreguiçando.

— Você melhora.

— Como está sua boca? Tem sangue escorrendo.

— Não foi nada. — Limpou com a manga da jaqueta de couro. — O pouso de uma mosca doeria mais.

— Vamos logo — gritou o homem, abrindo a porta de madeira.

Levi e eu o seguimos.

Ao passarmos pelo umbral, chegamos numa espécie de saguão de atendimento, com balcão e cadeiras de espera, repleto de panos estendidos sobre o chão. Sentada ali havia uma mulher lendo um livro infantil para duas crianças pequenas. Estava sorrindo, mas quando passamos, seu olhar se modificou para algo semelhante ao receio. Entramos em outra porta e logo estávamos do lado de fora.

O vento gelado em meu corpo suado me fez trincar os dentes. No céu, o sol estava recolhido detrás das nuvens, cinzento e mal-humorado. Devíamos estar na parte de trás do canil, pois havia uma cerca nos fundos, e dos lados, prédios enormes projetando sombra sobre o pátio. De um lado ao outro dele, havia incontáveis varais com roupas estendidas e, ao redor, pessoas, a maioria velhos e crianças, sentados ao acaso, conversando. Felizmente os latidos dos cães não eram ouvidos do lado de fora, caso contrário, os zumbis cairiam sobre aquele lugar como formigas atraídas por açúcar.

Diário dos Mortos-VivosWhere stories live. Discover now