Capítulo 01

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Os cabelos encaracolados daquela garota eram encantadores. Caíam como cascata por cima de seus ombros seminus e contrastavam com os traços finos da tatuagem, parcialmente ocultada pela regata escura que trajava. Apesar de evidenciarem uma superficial fragilidade, beirando à doçura, aqueles cachos delicados jamais poderiam mascarar o que aquela garota de fato era, tampouco o que tinha feito.

Agora, em meio à sujeira e ao abandono do depósito no qual estávamos, fiz o peso de meu corpo prendê-la no chão, enquanto minhas mãos enlaçavam seu pescoço de forma precisa.

Por mais que algo dentro de mim repudiasse minha atual ação, forcei meu lado sombrio a sentir prazer. Era um lado frio, treinado ao longo dos anos para fazer o serviço da melhor forma possível – ofício este que, inclusive, era bom. E por ser bom, deveria ser prazeroso.

Afinal, aquela doce garota encaracolada era responsável por um importante cartel de drogas nos subúrbios daquela pequena cidade. E eu, como um quase-herdeiro da Volk, uma respeitável facção de assassinos, além de ter a obrigação de gozar pela perfeita consecução de nossos objetivos, deveria sentir orgulho de limpar a sociedade de um verme como aquele, preso pela força de meus músculos.

Rapidamente, tratei de engolir a inconveniente empatia recém-criada pela garota bonita e apertei os dedos em seu pescoço. Pude sentir o pulsar de um coração desesperado afoitar minha pele enluvada, e o desespero tomou conta de suas feições angelicais. Após algum tempo sentindo seu corpo se debater contra o meu, numa tentativa desesperada de lutar contra a personificação da própria Morte, não demorou muito para eu ter um cadáver preso entre minhas palmas.

— Não sei se notou, Dimitri, mas ela já está morta.

Com um sorriso debochado, Boris empurrou meu ombro esquerdo e fez sinal para que eu me levantasse do corpo da garota. Mais uma vez, apertei meus dedos ao redor de seu pescoço, inseguro de ter terminado a missão de forma equivocada – deixar um alvo semivivo traria péssimas consequências para a Volk, mas não seria o meu maior problema. Um serviço malfeito é um erro grosseiro e imperdoável sob a ótica de Grigor, o Alfa da organização e nosso pai, unicamente no sentido fisiológico da palavra.

Após confirmarmos a inexistência de quaisquer provas e testemunhas ao redor do local, eu e meu irmão saímos do depósito abandonado totalmente submersos pela penumbra da noite. Em seguida, corremos em direção ao quarteirão seguinte, a fim de alcançarmos o esconderijo de nossa motocicleta – uma linda e enlouquecedora Harley-Davidson, pela qual eu morreria para ser o único dono.

— Sai, filhote — Meu irmão me afastou do assento do motorista, ainda sustentando aquela porcaria de sorriso irônico. — Eu piloto.

Apesar de não ser nem de longe minha primeira execução, eu ainda estava demasiadamente atônito pelo ocorrido e não tinha cabeça para discutir com Boris, como de costume. Assim, soltei um suspiro resignado e me sentei na garupa de nossa Harley.

E não demorou muito para o rugido da máquina urrar abaixo de nós.

Enfim, estrada.

. . . . .

A cidade onde nossa missão tivera sido designada ficava a duas horas de distância da sede da Volk, e tentar me equilibrar durante a direção alucinada de Boris era uma tarefa cansativa. Fora que compartilhar uma única motocicleta com aquele idiota era algo realmente irritante. Contudo, como era assim que tivera sido designado, era assim que deveria ficar – pelo menos por enquanto.

Realmente cansado de me sustentar na porcaria daquela garupa, forcei-o a fazer uma breve parada em um dos restaurantes à beira da estrada. Eu precisava mijar.

SUBVERSIVO - DegustaçãoWhere stories live. Discover now