Capítulo Onze

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Quando Morgana convidou Marco para ir à casa noturna mais badalada do momento, ele até pensou em recusar. Tinha dois livros novos esperando por sua companhia em casa, e também queria tirar pelo menos uma hora para colocar em dia a leitura dos informativos do STF. Isso sem contar que havia saído a nova temporada da sua série favorita e ele estava doido para "maratonar".

Mas a palavra "empoado" ficou rondando sua cabeça durante mais de duas semanas e aquilo o impediu de dizer logo: "obrigado, Morgana, mas não vou. Prefiro ficar em casa lendo, curtindo a Netflix¹ e tomando um chocolate quente".

Era quase certo que aquele convite só havia sido feito porque ela ficou com um peso enorme na consciência pelas coisas que lhe dissera quando ele lhe pediu para ser sincera. Não que Morgana o tivesse chamado de chato de galocha, claro, mas a insinuação tinha ficado mais explícita do que implícita.

Ainda assim, ele acabou magoado e sabia que ela se sentia mal por ter feito aquilo. Se Marco fosse um homem menos honrado, teria se aproveitado bastante da situação, fazendo-a se contorcer de remorsos.

Ele tinha habilidades para tal, anos de carreira em tribunais lhe ensinaram uma ou duas coisinhas.

No entanto, Morgana possuía um coração de manteiga, como a maioria de seus colegas que trabalhavam com direito da infância e juventude. E quando ela o olhava com aqueles grandes olhos marrons cheios de arrependimento, Marco não conseguia sentir raiva, tampouco poderia se vingar.

E foi por isso que, apesar do péssimo dia, ali se encontrava ele, em pleno sábado à noite, visivelmente deslocado com sua calça social, camisa e gravata, naquele lugar ignóbil. Havia ido para casa tomar um banho e trocar de roupa, obviamente, mas o seu guarda-roupa não tinha muita variedade. Ou eram peças casuais para ficar em casa, ir à academia ou no mercadinho da esquina, ou eram as roupas formais para o trabalho.

Decidiu-se, então, pelas roupas do trabalho mesmo, mas sem o blazer. Ele não iria ser um completo entojadinho naquela festa.

Malditas e barulhentas casas noturnas não eram o seu habitat natural. Ao ver as pessoas na fila, arrependeu-se da escolha. Talvez as roupas de academia fossem mais apropriadas.

Eu deveria ter deixado a gravata no carro, pelo menos. Só que me senti meio ridículo sem ela.

Deus, sou um empoado mesmo!

Ele suspirou e olhou ao redor sem reconhecer ninguém. Sozinho na multidão, que grande porcaria!

Ao menos não se encontraria apenas com Sandro e Morgana, mas também com Guilherme e Andressa, então talvez não fosse de todo ruim aceitar o convite. Não era como se ele fosse ficar segurando vela para um casal a noite inteira.

Seguraria vela para dois, mas aí já era algo menos solitário e até aceito socialmente.

Além disso, Guilherme já tinha esgotado todo o repertório de piadas com gravatas. E se ele começasse a recontá-las, Marco poderia contar com Andressa para dar um jeitinho de fazê-lo ficar quieto.

Morgana lhe dissera que eles estariam na área VIP e que, para entrar, Marco teria que apresentar a carteira de identidade. Ele levou não só a carteira de identidade, como a carteira de motorista, o cartão da OAB, o cartão do plano de saúde e um cartão de telefone público. Melhor prevenir do que remediar.

Aí eu perco a carteira com tudo dentro, ou me roubam, ou o Sandro descobre e começa a me zoar...

Deus, quanta paranoia! Assim nem mesmo ele conseguia aguentar os próprios pensamentos.

Apalpando a carteira, Marco sacou o primeiro documento que encontrou e avançou na fila menor, acreditando ser a dos VIP's.

Só que não era.

Meu Adorável AdvogadoWhere stories live. Discover now