Capítulo XI

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Homem do Futuro

          Blunt, aconchegado na poltrona, cruzou uma perna sobre a outra, escrutinando o garoto, estático do outro lado da mesa. Com seus olhos modificados, podia ver o próprio reflexo nas pupilas de Amber Kreyzer. Na imagem ampliada, suas íris de cor turquesa cintilavam, gentis. Tão gentis quanto as de uma cobra enquanto aguarda a presa estar ao alcance. Seus longos e bem-cuidados cabelos azuis desabavam até o peito, ocultando parcialmente o símbolo em seu colete, um cérebro negro com olhos.

          Estará ele lendo meus pensamentos?, pensou, fitando a expressão melancólica do garoto. É provável que sim. Nesse caso, é um prazer conhecê-lo, criança.

          Com um gracioso gesto, Blunt acionou o computador na superfície da mesa. A tela holográfica elevou-se, azulada, exibindo imagens de segurança. Ele fez outro movimento e informações surgiram.

          — Amber Kreyzer — leu ele, com um sorriso de dentes perfeitos. — Dezessete anos, estudante de categoria Delta, número de identificação D9554208-533. É isso? Amber. Âmbar. Esse é um belo nome. Sabia que em grego antigo âmbar é escrito como elektron?

          O garoto não respondeu. Se limitou a encará-lo, parecendo apático, ou resignado.

          Blunt alargou o sorriso.

          — Esse é o problema da juventude — virou-se para Lupo, o androide de pé à sua esquerda —, não acha? Lhes falta curiosidade. Acham que já sabem tudo, e por isso suas mentes encolhem. Tornam-se mais obsoletos do que os velhos. — Virou-se novamente para Amber. — Quantos anos acha que eu tenho?

          Silêncio. Os olhos do garoto ardiam, gelados, um negro e outro cinza.

          — Do tipo calado, então. — Voltou-se ao androide. — Quantos anos acha que tenho?

          O androide Lupo respondeu, de imediato:

          — 79, senhor.

          Blunt fechou a cara.

          — Você procurou no sistema. Não era pra procurar. Devia falar um número de acordo com minha aparência.

          O androide não pestanejou.

          — Sinto muito, senhor. Suas instruções não foram específicas. De acordo com os detalhes da sua cirurgia de rejuvenescimento, o senhor optou pela idade de 26 anos.

          Blunt suspirou.

          — Enfim, Amber Kreyzer, a verdade é que eu poderia levá-lo sem qualquer explicação; enfiá-lo num veículo e arrastá-lo para seu destino, mas não faço as coisas assim. Prefiro a civilidade. É claro, também há a questão de que este é o primeiro trabalho ao qual me enviam em mais de dois meses, de modo que não há pressa!

          Blunt espreguiçou-se graciosamente.

          — Bem, vejamos. Você foi identificado em duas zonas-coração. A primeira, na rua D-923, placa de identificação 1001; um estabelecimento chamado "Fábrica de Sonhos". Suas digitais foram encontradas espalhadas pelo lugar, e, além disso, as câmeras das ruas periféricas gravaram-no indo e vindo na hora do incidente. Não há dúvidas quanto a sua participação no massacre, resta apenas definir sua exata extensão. Isso fica a cargo das autoridades em Omega.

          — Omega? — disse o garoto. — Nunca ouvi falar nesse lugar.

          — Ah, como posso dizer. — Blunt enrolou uma mecha de cabelo azul entre os dedos —, é uma espécie de clínica de reabilitação para jovens desordeiros? Sim, é isso. Você fica um tempo lá, cuidando da sua saúde mental, até estar apto a retornar à sociedade. Maravilhoso, não acha?

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