PRÓLOGO

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ZERO


          Erick é um jovem que largou a escola no final do primeiro bimestre do último ano do ensino médio. Este sou eu.

          Eu realmente fiz isso.

          A história que fala sobre mim, sobre Erick, poderia ser contada por qualquer um, se houvesse qualquer um que a soubesse. Eu poderia dizer que, no meu estado atual, sou alguém que possui apenas uma pessoa para contar minha história — embora tenha mais uma, mas esse alguém está em outro lugar agora.

          Se a sua história só pode ser contada por pessoas que o conhecem, então somente um número limitado de pessoas no mundo poderia ter suas vidas narradas e contadas para o público. Isso é até cruel, se pensar mais abertamente. Se analisarmos que possuímos cerca de sete bilhões de pessoas no mundo inteiro, e que, dentro desse grupo imenso — chuto eu —, uns cinquenta por cento possui pessoas que o conhecem quase totalmente, então... o que há com o restante? Ou mais, seria o restante o grupo que conhece os primeiros cinquenta por cento? Então, nesse caso, o contrário também poderia acontecer, e, assim, todos teriam suas histórias contadas.

          Curioso como eu levanto uma tese, apresento sua antítese e em seguida demonstro como me enganei, que ela era possível desde o início — deem o prêmio de incoerente do ano para este homem que vos narra.

          Existe aquela teoria de que todos estamos ligados por pelo menos quatro graus de amizade, ou seja, um amigo de um amigo de um amigo de um amigo. Eu lembro que li sobre isso uma vez em um livro, embora eu não procurasse por isso realmente — o livro era interessante, sem dúvidas, tinha um caranguejo gigante.

          Se pegarmos o que eu disse mais acima, sobre apenas uma porcentagem poder contar a história da outra, e juntarmos com a ideia de estarmos ligados por pelo menos quatro graus de amizades, então dá para supor que, de fato, todo mundo terá sua vida contada ou narrada por alguém.

          Errado.

          Agora eu traio minha própria afirmação.

          Pois a ideia de todos poderem ter suas histórias contadas gira em torno de todos possuem um amigo no mínimo.

          Não dois, nem quatro, nem dez. Apenas um, e somente um.

          Desse modo, haverá um grupo muito pequeno, quase inexistente, de pessoas que não poderiam ter suas vidas contadas.

          Considerando tudo o que houve recentemente, eu poderia não ter alguém para contar minha história, poderia não ter mais nenhum amigo, ninguém. Mas, por sorte, por um acaso, ainda há, então não pertenço a esse grupo solitário.

          Seria cruel demais esbanjar isso? Não, melhor deixar para lá.

          Eu poderia ter começado contando tudo o que houve comigo no mês passado — em março, para ser mais exato —, sobre como evitei entrar nesse grupo dos que não podem ter suas histórias narradas. Porém... isso seria um ato descarado de minha parte, estaria colocando qualquer um em uma posição difícil, tendo que escolher o que realmente importa saber.

          E isso, para mim, não pode ser decidido de maneira conjunta.

          Posso afirmar que o que contarei será tão ou mais interessante quanto, embora sua curiosidade por eventos passados seja alta, acredito que isso possa ser irrelevante para o agora.

          Pois, após tudo o que houve, após eu conhecer aquela pessoa e aquela outra pessoa, minha vida tomou um rumo completamente diferente. Para um aluno do terceiro ano do ensino médio, o que me foi apresentado não mudou, praticamente destruiu minha vida anterior e criou uma nova, uma que não sei dizer se é minha de fato ou se eu apenas a peguei para mim. Eu diria que a experiência que eu tive me empurrou para ser obrigado a ver o abismo e tentar achar que ele podia olhar para mim, quando, na verdade, ele sempre esteve me observando.

          Mas isso não importa agora, eu já estou vivendo esta vida, então pensar se ela é minha ou não pouco me importa.

          A aceitação é um passo importante, e eu tive todo o tempo do mundo para fazer isso da melhor forma. Então, alguém como eu, que foi inserido no mundo sobrenatural, que conheceu seu melhor amigo da pior maneira possível, posso dizer que é até questionável eu ser o ator principal desta peça — mesmo sabendo que ninguém mais a narraria.

          No entanto, considerando toda a apresentação quase científica que fiz no início, por que será eu quem contará tal história?

          Esta não é necessariamente uma história sobre mim.

          Seria mais como uma história sobre o que eu vi.

          Isso se adequa tão perfeitamente que, sendo um pouco ousado, deveria estar na capa deste conto. Portanto, não sendo uma história sobre mim, eu posso me dar o luxo de contá-la.

          Contarei como eu e meu melhor amigo, que é uma esquisitice sobrenatural, uma aberração, uma assombração, conhecemos certas pessoas em situações complicadas de se resumir em poucas linhas; onde aprendi pequenas coisas que não pensei precisar, muito menos que fosse saber. Não esbanjando arrogância, gostaria de adiantar que somente eu poderia contar o que houve da forma que aconteceu, mas certamente se eu encontrasse pessoas que passaram pelo mesmo, nós poderíamos narrar todas as deixas sem pestanejar, contudo, acredito que isso não seja possível no momento.

          Se isso é importante ou não, se isso é mais interessante ou não do que o que houve antes — sobre o que houve no final do primeiro bimestre no meu último ano do ensino médio —, eu não poderei decidir, pois isso é algo que não se decide em conjunto, e você ainda não sabe o que houve para comparar com o que irei contar.

          Como um bom ouvinte, alguém que escutará estas histórias de início ao fim sem perder o fio da meada um segundo que seja, é responsabilidade sua decidir isso. E, embora pareça que estou jogando meu trabalho para outro, acredito solenemente que estará mais capacitado do que eu para ver tudo de um ponto de vista mais ambíguo.

          Eu lhe dou essa tarefa, essa missão, faça-a por mim, por favor.

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Hábitos Decadentes - Exílio AberranteOnde as histórias ganham vida. Descobre agora