Naquela noite estava para ser o meu ultimo show, a nostalgia das ultimas estrofes da musica, o público enlouquecidamente cantando em um só ritmo "Safety" uma de minhas canções principais, eu com um microfone na mão, e eles com as mãos estendidas, meu corpo estremecia, estávamos em uma só conexão como sempre, mas naquela noite era diferente, mesmo que não soubessem, era a minha despedida.

Há muito tempo eu não me sentia vivo, com quatorze anos fui reconhecido por um olheiro em Seul, era um sonho, não vou mentir, era maravilhoso em pensar que poderia ser reconhecido e mostrar o meu melhor, mas não sabia que em meus vinte e três anos eu seria um ídolo, uma grande influência para uma nação, eu era visto por muitos, amado por milhares, ultrapassei limites que nunca imaginaria, eu era mundialmente famoso. E sem meus fãs eu não seria ninguém. Meus pais se orgulhavam de mim, durante o primeiro ano após o meu debut, eles iam em todos os shows, porém conforme fui crescendo na carreira fica mais difíceis deles comparecerem em meus shows e eu da vida dele deles, a fama era maravilhosa, mas tinha também seus contras, uma delas era ficar longe e mesmo sem perceber, fiquei durante um ano sem ver seus rostos. A consequência disso, foi um acidente de carro em que eles estavam dentro. O beijo com ternura em minha testa antes de sair de minha mãe, eu não poderia sentir novamente, a voz grossa dizendo que ficaria tudo bem e a mão rígida em meu ombro, não poderia mais ouvir e muito menos sentida e isso doía, ainda mais por não poder ter dito Adeus, meus dias a partir daquele momento mudaram, o vazio se instalou e tudo mudou.

Naquela noite do show dei o meu melhor, o show foi incrível... Há muito tempo não sentia aquela sensação, há muito que eu não me entregava às músicas tão intensamente, colocando meu coração em cada estrofe pronunciada. O som grave e oco do solo da guitarra invadiu meus tímpanos, causando-me uma sensação de euforia, sentia sua melodia correndo pelas minhas veias, e assim que o fundo da bateria começou, senti meu coração pulsando na mesma batida, parecíamos ligados... Nunca havia sentido isso em nenhum dos meus shows, por um momento acreditei que elas estivessem se despedindo. Todos naquele lugar haviam sido tocados, elas choravam com a mão no coração, quando a música chegou ao fim em uma acapella todas as pessoas continuaram cantando o refrão, meus olhos marejados só tinham a agradecer.

— Hoje é o dia que ficará eternamente em meu coração — comecei a falar ofegante — Há exatamente nove anos atrás eu fui descoberto, estava cantando e alguém viu algo em mim que poderia ser moldado e hoje graças a vocês eu me tornei quem sou e espero que nunca deixe de existir esse carinho entre nós.

Eu senti tudo ficar lento, o publico estava em silêncio, ainda com meus olhos marejados, senti uma pontada no peito e minhas lágrimas começaram a descer.

— Às vezes acontecem coisas na nossa vida que não dá para entender, algo tão pequeno pode fazer uma brusca mudança e quando vemos já aconteceu, eu nunca pensei que chegaria até aqui e hoje sinto que devo muito a vocês e nunca vou querer decepcioná-los, vocês são tudo para mim e espero que o que vier acontecer, não deixe apagar as boas memórias, onde eu estiver levarei vocês comigo — senti minha perna cambalear, mas me mantive firme, um adeus oculto sem dizer em palavras, era como partir meu coração, mas não podia dizer, não podia deixar que notassem o que eu queria fazer, o meu intuito daquele recado e se eu tiver que partir, queria ao menos deixar alguma lembrança boa, algo que pudessem dizer que eu fiz o meu melhor — Então, só tenho a dizer que fiz o meu melhor por vocês... Sinto muito.

Sai em meio aos aplausos, era como aqueles shows que você vê na TV e fica arrepiado, todo o carinho que recebi nesses últimos anos do publico me fez aguentar até naquele dia, mas estava difícil, cada dia que passava parecia que iria me afundar em um abismo, eles diziam que eu era fraco, que isso era só sobrecarga e que algumas horas de descanso iriam ajudar... Mas nada disso é verdade, eu precisava me livrar daquele vazio, não havia motivos... não tinha motivos para continuar. Aquele era meu ultimo show da turnê, era no Rio de Janeiro, uma linda cidade agitada, mas ali que eu conseguiria a minha libertação. Os seguranças me acompanharam até o carro e voltamos para o hotel.

— Preciso do carro para ir a um lugar Cho-Hee— disse ao motorista assim que chegamos.

— Eu vou deixa-lo no local, só me dizer o endereço.

— Não, eu quero ir sozinho.

— Mas o senhor Kim, pediu para que eu o...

— O senhor Kim pediu e eu estou pedindo um carro — o interrompi —Depois eu volto para arrumar as coisas, não vou demorar e nada vai acontecer.

Ele olhou para mim e assentiu me entregou a chave e saiu e eu repliquei.

— Vamos... Somos amigos desde a escola.

Coloquei o endereço no GPS, o tempo estava completamente fechado, estava a começar a chover, poucos minutos o GPS, tinha mostrado que eu havia chegado ao local. Mandei mensagem ao numero que eu havia chegado. Uma porta preta se abriu e uma pessoa com uma capa de chuva saiu com as mãos no bolso e foi em direção ao carro, abri a janela.

— Boa noite, junto está as instruções de como pode ser usado.

— Obrigado — entreguei o envelope com o dinheiro e ele o pote com um papel — Ninguém pode saber que estou aqui, está bem?

Ele contou o dinheiro e assentiu.

— Não quero me meter, mas pense muito antes de qualquer coisa, não sei o que deseja com isso, mas pense.

— Já pensei demais, Adeus e obrigado — dei um sorriso.

Assim que sai a chuva aumentou, o GPS me indicava o caminho de volta, eu não conhecia nada dali, a chuva estava dificultando minha visão, eu tinha que voltar para o hotel, não podia perder o voo, a cada segundo aumentava e embaçava. Em questão de segundos tive que dar uma freada brusca, uma menina atravessava a rua, eu mal pude enxerga-la. Sai do carro correndo, o farol, do carro ajudava a clarear, a menina estava ao chão, eu não sabia o que fazer, respirei fundo e busquei no silencio algo que pudesse dizer, mas mal saia algo além do desespero.

— Ei, você está me escutando? Vou te levar a um hospital — eu estava começando a entrar em pânico, minhas mãos iam até ela, mas não conseguia tocá-la — Pode me dizer seu nome?

— Não posso ir ao hospital — sua voz saia com dificuldade — Por favor.

— Sua casa então? Onde? Onde posso te levar? Ajude-me ao menos, a saber, o que fazer, você precisa de ajuda.

Ela desmaiou, eu estava com as mãos atadas, ela não queria que eu a levasse ao hospital, mas se eu não a levasse poderia acontecer algo ruim, no entanto se eu a levasse ficaria preso lá e não poderia viajar a tempo, alguém com uma situação complicada pode tomar atitudes drásticas, me levantei com rapidez e fui abrir a porta do passageiro, e voltei correndo para pegá-la, abaixei e a peguei no colo com muito cuidado, seu rosto era belo, sua pele estava gélida, então a coloquei com cuidado no banco e voltei para pegar sua mala e pus no banco de trás logo em seguida fechei a porta, sentei-me e lembrei-me do cinto, me estiquei até ela para por, seu cabelo liso que estava em seu rosto, coloquei para trás da orelha, seu rosto era meigo, sua pele era clara e sua boca estava ficando roxa, voltei para o meu lugar e coloquei o meu cinto, liguei para o Cho-Hee.

— Aconteceu alguma coisa? — ele atendeu e parecia preocupado.

— Estou a caminho, me espera ai na frente, peça para o doutor Kang esperar no meu quarto.

— Sim, mas o senhor se machucou?

— Só faça o que eu disse — Desliguei.

Eu estava indo rápido, desesperado para ajuda-la, precisava chegar o mais rápido possível, ela estava com sangue, não sabia de onde vinha, não sabia o grau, eu estava encharcado, com medo, e estava disposto a leva-la a Coreia comigo se fosse preciso.

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