Capítulo 1

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Segunda-feira amanhece como sempre para a maioria dos habitantes de Lovesbreath: esverdeada, úmida e graciosa. Como se não bastassem as cores vivas, o arco-íris e a melodia dos galos cantando, ainda tenho que ouvir a falaçada dos meus pais no café da manhã:

– Animada pra faculdade, filha?

– Não. – respondo.

– E os seus coleguinhas, será que já conhece algum?

– Espero que não.

– Meu Deus querida, faculdade! Agora só falta achar um namoradinho, né?

– Eu vou voltar a dormir.

Os meus pais fazem parte da "maioria" que aprecia o amanhecer do povoado. Eu, por outro lado, sou a única que não pensa como eles. A agulha deslocada no meio de um palheiro de pessoas felizes malucas.

Volto ao quarto, faço um coque no cabelo para não precisar pentear e ponho uma roupa qualquer sobre o pijama. "Não se pode ir à faculdade de pijama", diz minha mãe. Se eu tivesse escolha, usaria pijama para estudar/trabalhar/viver. Quando desço as escadas, digo para andarem mais rápido que estou pronta pra ir.

Ao contrário do que as outras pessoas pensam (com pessoas, me refiro a pequena parcela de alunos que se formam no ensino médio e resolvem fazer uma graduação), a faculdade não é a coisa mais legal do mundo. E o primeiro dia de aula, pode facilmente ser o pior dia de vida se você não souber as regras de sobrevivência:

Regra #1: Não tente parecer legal – Falar das suas realizações pessoais, bandas maneiras, ou assuntos do momento. Quando você é calouro, nada do que diga ou faça vai te tornar mais interessante. Tem que passar pela parte ruim como todo mundo.

Regra #2: Não pergunte nada além de: "Para onde eu sigo?" e "Que hora começa?". Se você perguntar qualquer outra coisa, terá que suportar um estranho falando horas sobre a vida dele. O pior é que no dia seguinte ele vai querer ser o seu melhor amigo, e você simplesmente fugir.

Depois de meia hora na estrada nós chegamos à cidade vizinha, Shamestore, onde sou deixada em frente ao campus com um beijo de boa sorte e um aviso: "Use camisinha". Sim, minha mãe é dessas. Então abro o meu quadro de matérias pela primeira vez e descubro que preciso estar no ginásio junto com o resto dos calouros em cinco minutos.

– Com licença, sabe onde fica o ginásio? – pergunto a um garoto estranho. Escolho um garoto, porque meninas geralmente querem andar com você e te apresentar todos os lugares e pessoas. Eu só quero saber onde é o ginásio.

– Fica no bloco C – diz ele apontando para a direita. – Sexto andar.

– Sexto andar? – pergunto. – Sexto andar do quê?

– Do bloco C – responde ele. – O sexto andar do bloco C é onde fica o ginásio.

– Ok. Muito obrigada.

Como ainda não sei onde é o bloco C, vou para a direita e sigo o fluxo. Você consegue diferir os calouros dos veteranos com facilidade: calouros andam mais devagar, seguram folhinhas e olham para os lados sem sorrir. Há um grupo assim uns dois metros à frente. Acelero o passo, me aproximo e em dois minutos nós alcançamos o ginásio.

Lá dentro, as centenas de cadeiras já estão ocupadas. Uma equipe de dez eletricistas trabalha incessantemente montando o equipamento de som num palco instalado bem no centro da quadra. Sento no chão e aguardo seja-lá-o-quê-for junto dos outros mil alunos, já me irritando com a maldita falaçada não me deixa esperar em paz. O lado positivo é que ninguém veio conversar...

A Teoria da Bolha de SabãoOnde as histórias ganham vida. Descobre agora