Correntes de Ar Também te Prendem (parte 2 de 3)

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Ele cortava o ar. Ia rápido, corrigindo a direção com os braços. De vez em quando Saci dava um giro, diminuía a velocidade, puxava o máximo do ar rarefeito. E com o fôlego recobrado, voltava a acelerar.

Lá encima, o frio e o Sol misturavam-se. Era uma combinação que exigia muito do corpo: o nariz gelava ao soltar aos poucos a respiração, os braços queimavam e tremiam. A água das nuvens condensava na pele, nas roupas, na mochila. Pesando. Mas, as gotículas não conseguiam se agarrar ao corpo dele por muito tempo e logo eram arremessadas para longe.

Depois de mais de uma hora voando. Ele desceu um pouco antes de chegar à cidade. Assim seria mais seguro. Seguiu a pé até lá.

O primeiro lugar que deveria ir era na Universidade. Quanto menos tempo demorasse ali seria melhor. Havia olhos em cada esquina.

Saci caminhava pelas calçadas de cabeça baixa. Misturava-se entre grupos de pessoas ou acompanhava os passos de um cara ou outro como se amigos fossem.

Em uma avenida, ele parou na faixa à espera do sinal fechar, estava impaciente, com o canto do olho vigiava um painel ao lado onde se mexia uma Propaganda de perfume: uma garota com traços orientais segurava o frasco, borrifava no pulso, sorria, mantinha o contato visual com uma mulher igual a ela.

A Propaganda passou os olhos pelo grupo, focou em um barbudo, sorriu. Pelos cresceram escurecendo o rosto dela, os cabelos negros e lisos recolheram-se, toda a face foi alterada para se adequar ao novo alvo. Repetiu os movimentos: mostrou o produto, borrifou no pulso, olhos nos olhos, sorriu, sorriu, passou a caçar a próxima pessoa.

Os olhos da Propaganda se fixaram em Saci. O sorriso se desfez na mesma hora.

Identificação facial não confirmada. Identificação facial não confirmada.

O sinal ficou vermelho e os carros pararam alinhados na faixa de pedestre. Saci ajeitou o gorro. Apressou os passos. Cabeça baixa.

O homem na tela ainda o encarava. 

Mas, Saci conseguiu esconder-se no meio da multidão. Não poderia chegar perto de mais nenhuma propaganda daquele tipo. Um rosto não identificado poderia ser entendido como um defeito do sistema, por outro lado, várias ocorrências eram o mesmo que formar um rastro de suspeitas até ele.

Precisava tomar mais cuidado. O campus da universidade estava logo ali, mais quinze minutos de caminhada e alguns semáforos, que ele iria esperar bem longe e correr quando fosse o momento de passar.

A próxima rua era estreita, uma via por onde carros não passavam, mas estava cheia de comerciantes, o que diminuía um pouco mais o espaço. Ótimo. Ali haveria muitos lugares para se esconder.

Naquele cheio de gente ele começou a se sentir em casa, gostava do movimento, do converseiro. Gostava de...

— Droga. — Havia mais uma Propagada no meio do caminho.

Saci parou onde estava, colocou a mochila para frente, começou a fingir que estava procurando alguma coisa.
O painel ficava no meio da rua, não havia para onde escapar, para piorar nem os feirantes permaneciam perto daquilo, talvez por já estarem de paciência torrada com a repetição das frases publicitárias o dia inteiro.

Ele esperou a Propaganda se distrair com um rapaz e apressou o pé para passar. A réplica do rosto na tela chegava à perfeição de trazer até uma espinha que o menino tinha encima da boca.

De rabo de olho ele viu folhas crescerem em meio ao cabelo curto da Propaganda. Ela puxou uma e comeu. Sorriu. Mesmo com a pressa Saci ainda conseguiu ouvi-la dizer com a voz que talvez fosse realmente a do rapaz: "Agro é vida... Agro...", arrancou mais uma folha dentre os fios de cabelo e sem tirar os olhos de cima do jovem sentenciou: "...é tudo!", abocanhando o que tinha entre os dedos.

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