Capítulo X

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Figura Cinzenta

          O deserto cinzento se estendia para muito além de sua vista. O sol, um balão de luz preso por um fio à sua cabeça, flutuava contra o céu igualmente preto-e-branco, distorcendo um horizonte de dunas indiferentes e solitárias.

          A cada passo, seus pés desmanchavam os sulcos perfeitamente simétricos da areia, deixando no lugar pegadas deformadas, cuja existência o vento não demoraria a dissolver, obsequioso.

          Também não havia qualquer cor nele. Era tão sem vida quanto o deserto.

          Apenas uma minúscula sombra dissonava com o ubíquo cinza daquela paisagem ondulante. Era essa sombra que, sem entender o porquê ele perseguia. No entanto, por mais que avançasse em sua direção, por mais que corresse até sangue cobrir a sola de seus pés, ela continuava distante como uma impossível ilusão. Ele estava prestes a desistir, havia parado de se mover e apenas encarava as próprias mãos cinzentas, quando, de repente, algo surgiu à sua frente.

          O homem multicolor o encarava, com sua sombra estendida para trás, sobre a areia, como um manto negro colado às suas costas. Era muito alto, pelo menos 2 metros de altura. Careca, de olhos pequenos e traiçoeiros, tinha um rosto irredutivelmente estúpido. Vestia um macacão todo branco e tinha os lábios retorcidos em um sorriso de escárnio.

          — Vamos brincar — disse ele, então deu uma risadinha que soou igual a ossos sendo revirados.

          A figura cinzenta não vacilou. Precipitou-se rumo ao homem, areia esvoaçando para trás a cada pernada. Um objeto cortante apareceu em sua mão e ele enfiou-o inteiro no pescoço do gigante. Sangue frio emergiu num jorro do ferimento, salpicando a figura cinzenta de vermelho, para, em seguida, pingar sobre a areia, que absorvia-o deleitada.

          Contudo, para seu terror, o sujeito ferido permaneceu de pé, sorrindo para ele com sangue escorrendo das orelhas, boca e nariz. Então, subitamente, o homem virou-se e, com uma velocidade vertiginosa, lançou-se na direção da sombra distante, deixando atrás de si, sobre a areia cinzenta, um rastro carmesim.

          A figura cinzenta salpicada de vermelho seguiu a trilha deixada pelo homem, e quando deu por si, olhou para a sombra ao longe e percebeu que ela estava mais próxima do que antes. Foi então que mais alguém materializou-se diante de si.

          Dessa vez era um garoto. Tinha os cabelos escuros e lustrosos, a pele morena e um físico compacto. Seu olhar impassível fez a figura cinzenta salpicada de vermelho hesitar e recuar, baixando o olhar. Mas quando ela tentou fugir, viu que não havia mais nada para trás, nem areia, nem céu, nem nada, somente vazio. Cerrando os punhos, ela forçou-se a encarar seu inimigo.

          — Quem é você? — indagou o garoto, seus olhos negros e intimidantes fixados nos da figura cinzenta salpicada de vermelho.

          Antes que pudesse responder, uma poderosa rajada de vento atacou o deserto, elevando o garoto no ar em um redemoinho de areia acinzentada. Então, de súbito, o vento morreu e ele despencou ao chão. Uma chuva negra respingou no rosto da figura quando o corpo acertou a areia. Ela se aproximou e examinou o cadáver.

          A cabeça e o peito do garoto eram uma polpa sangrenta umedecendo o deserto. Um dos globos oculares havia sido espirrado com o impacto, e a figura cinzenta salpicada de vermelho e negro esmagou-o sem querer ao se agachar. Nesse momento, o que restava dos lábios do garoto se abriu e exibiu um sorriso repleto de dentes quebrados. Então ele se levantou e correu, arrastando atrás de si o tronco destroçado; restos de seus órgãos formando uma estrada negra sobre a areia sem cor.

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