Nina

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A tornozeleira aperta, mas eu não posso tirar. Não ainda. Se tudo der certo, no fim de semana... Não parece real. Achei que esse momento jamais chegaria, como um relógio parado às onze e cinquenta e nove. Depois de sete anos eu parei de acreditar nesse ponteiro do relógio.

Ah, quanta falta me faz a Nina.

Ela coça mais do que dói. Não posso enfiar nada para não correr o risco de disparar o alarme. Em menos de cinco minutos um carro estaria na minha porta e, com mais dois, eles estariam dentro da minha casa. Se é que eu posso chama-la tanto de minha quanto de casa.

Passo o elástico pela panturrilha, envolvendo o saco plástico. Só assim posso tomar banho. Se o dispositivo falhar... cinco minutos de novo.

No fundo, tudo aconteceu por causa da Nina. Acho que foi aos doze a primeira vez que ela foi embora.  Eu não fazia ideia do que estava acontecendo. Me jogava na cama e esperava o dia passar. Não tinha forças para fazer nada, mas tinha que fazer mesmo assim.

Ensaboo meu corpo com o que me resta da sabonete. Preciso ir no mercado, mas não tenho dinheiro na conta. Aliás, não tenho nem mesmo conta. É difícil arrumar emprego quando se está nessa situação. A água quente escorre pelo meu rosto. Sempre gostei de banhos quentes. Parece que lavam um bocado do que tá sujo dentro da nossa cabeça. Pena que o efeito dura pouco.

O chuveiro desliga. Não paguei a conta de luz de novo. Meu peito está gelado e estou tremendo. Não é por causa da água. Acostumei com ela fria. Aliás, ela está mais quente do que dentro de mim. Saio do banho e me enxugo com a única toalha que possuo. Não posso demorar, tenho compromisso.

Jogo a toalha sobre o colchão que comprei de um bazar. A espuma sai para fora, mas isso não me importa muito. Eu quase nunca consigo dormir. Isso também é culpa da Nina. Nunca tive um sono equilibrado. Ou eu dormia demais, ou eu não dormia nada. Foi assim que perdi meu último emprego. Dormindo demais e de menos.

Meu armário só tem duas peças. As duas pretas. Nunca fui muito de cores. Por mim o mundo seria preto e branco. Quando a Nina foi embora, ela levou as cores também. Visto qualquer coisa. Da minha janela minúscula, vejo o céu alaranjado. Meu horário está contado, mas não tenho pressa. Não é nada que eu não tenha feito nos últimos dois anos...

Não sei por que tranco a porta, mas tranco. Quarto, cozinha e banheiro. Não preciso de mais nada. Se pudesse, nem cozinha tinha. Mas tem. Abro a porta de novo e vou na única porta de armário que cabe nela. Tiro uma barra de chocolate e levo comigo. Só tenho cozinha para guardar os doces. Não estou com fome. Estou descendo as escadas e já comi metade da barra. Nem vi. Guardo de volta.

Passo pelo portão gradeado. Seu Joacir está mexendo no interfone de novo. Quinta vez esse mês. Ele me dá um sorriso frágil que nem retribuo. Metade do prédio tem medo de mim. Eu também teria. A luz vermelha da minha tornozeleira pisca. Ainda não anoiteceu completamente. O ponto de ônibus está cheio. Jogo a embalagem vazia de chocolate fora. Não aguentei. Devo comprar mais na volta. Não tenho dinheiro.

Quarenta minutos até que eu entro. Meu celular vibra um punhado de vezes. Não preciso olhar o visor para adivinhar quem é. Só converso com uma pessoa. Às vezes acho que ela estaria melhor sem mim. Não respondo. Queria que fosse a Nina, mas não é.

Quando a Nina foi embora, achei que ia ser permanente. Às vezes ela aparecia quando eu ia correr. Isso foi anos antes da prisão. Dez quilômetros todo dia. Voltava com as pernas até bambas. Depois diminui para cinco. Não sei por que. Acho que faltou tempo. Eu gostava da vista da lagoa. Acho que fazia bem pra Nina. Se fazia bem pra ela, fazia pra mim. Acho que foi ela que parou de ir primeiro. Ou será que fui eu? Só sei que parei de correr. Parei com tudo de exercício.

NINAOnde as histórias ganham vida. Descobre agora