8 de Agosto - Jaula

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"8 de Agosto de 2017

Escrevo isto de quatro, enquanto meia dúzia de cachorros latem à minha volta. Não sei quanto tempo me resta antes que eles cheguem, por isso serei breve sobre como vim parar aqui.

Depois de cruzarmos a avenida infernal, entramos nessa esquina e seguimos em direção ao centro, onde fica a casa de Raquel. Quando encontrávamos um morto-vivo solitário, Levi tratava de abatê-lo, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. Há algo de errado com ele, sei disso. É como se nada lhe importasse. E por algum motivo, ele está me ajudando. Não que eu esteja reclamando. Só gostaria de entendê-lo...

Enquanto seguíamos sorrateiramente, eu reparava na quantidade absurda de acidentes, casas incendiadas e lixo espalhado. No entanto, o mais surpreendente era a quantidade daqueles seres. Quanto mais perto do centro, mais lenta se tornava nossa marcha. Os malditos estavam em todos os cantos. Dezenas, não, centenas de mortos-vivos. De alguma forma, durante essas semanas que me mantive escondido, eles dominaram tudo. A cena mais incrível, contudo, foi quando passamos próximo de um supermercado e observamos seu vasto estacionamento.

Havia tantos que alguém examinando de um helicóptero teria dificuldade em enxergar a cor do concreto do chão. Centenas de violentos seres sem consciência, não mais do que animais dominados por vagas necessidades enterradas em seus cérebros atrofiados. Eles vagavam sem nenhuma orientação, suas cabeças giravam para todos os lados, como que à espera de alguma ação, algum estimulo que os poria em fatal movimento.

Perdido nesse cenário digno de pesadelo, finalmente compreendi a escala desse acontecimento. Era absurdo, surreal, mas havia acontecido. Nós havíamos perdido. Pelo menos aqui, a humanidade foi derrotada. Não sei quanto aos outros lugares, pois a televisão e internet desapareceram, mas imagino que não estejam muito melhores. Me pergunto como isso foi acontecer. A espécie dominante do planeta, a mais inteligente, refinada e adaptável, varrida em questão de dias, substituída por monstros. Como fomos pegos tão desprevenidos? Nunca fui de acompanhar as notícias, mas algo deve ter acontecido, algum prenúncio do que estava por vir. Eu simplesmente o perdi. Mesmo assim... Que panorama fodido.

— Deve ser promoção da Black Friday — disse Levi.

— Cala a boca.

Nos afastamos dali tão quietos quanto possível.

Havíamos percorrido algumas centenas de metros quando avistamos a fachada dessa padaria, Doce Mel, e decidimos que seria um bom lugar para recarregarmos as energias. Além de uma oportunidade de forrarmos o estômago com algo que não estivesse numa lata há não sei quanto tempo.

A porta metálica da frente estava fechada, o que significava que, provavelmente, ninguém havia saqueado-a ainda. Como o cadeado parecia robusto demais para ser quebrado, decidimos tentar a porta dos funcionários.

– Eu mataria por um sonho recheado de creme de leite – disse Levi, enquanto escalava a cerca metálica ao lado do prédio da padaria.

– Eu mataria por um banho quente de uma hora – falei, seguindo-o.

Já do outro lado, avançamos pelo beco até a porta lateral.

Nos aproximamos dela e Levi tentou abri-la. Trancada.

– E agora?

– Relaxa – disse ele, entregando-me o capacete e puxando do bolso da calça um cartão de crédito.

Mas não era um cartão de crédito, e sim uma caixinha com várias espécies de pinças metálicas dentro. Ele pegou duas e enfiou-as na fechadura da porta.

– Onde aprendeu a fazer isso? – perguntei, espiando sobre seu ombro.

– Na internet.

Trinta segundos depois, a porta estava destrancada. Abrimo-la devagar, revelando o interior escuro, e entramos.

Assim que eu pisei no interior da padaria, as luzes subitamente se acenderam, cegando-me, e alguém me chutou no rosto. O mundo virou de ponta cabeça. Minha bochecha acertou o piso branco e uma dor latejante nublou meus sentidos.

Com um fio de consciência, testemunhei frações do que acontecia à minha frente.

Levi lutava com duas pessoas, e havia mais ao fundo, detrás das prateleiras, como sombras tremulantes indo para lá e para cá. Elas tentavam derrubá-lo, mas ele continuava de pé, debatendo-se como uma touro possuído. Tudo acabou quando uma garota morena e esguia aproximou-se dele e, com um soco digno de um boxeador, enviou-o para o mundo dos sonhos. Nesse momento perdi a consciência também.

Quando acordei, estava aqui, com um cheiro curioso grudado nas narinas. Tentei levantar e acertei a cabeça em algo. Grades. Então me sentei e olhei melhor ao redor.

À esquerda e à direita, à frente e às costas, incontáveis fileiras de jaulas semelhantes à minha espalhavam-se pelas paredes e umas sobre as outras. Eram todas minúsculas, e só quando vi um cachorro, um labrador, dentro de uma delas, percebi que se tratava de um canil. Minha mochila havia sumido, assim como Levi.

Essa cela é tão pequena que só posso ficar ereto se caminhar usando os joelhos, e mesmo assim, só consigo dar quatro ou cinco passos antes de bater de cara nas grades. Devido às janelas serem poucas e minúsculas, o calor é intenso, sufocante. O cheiro de animais, fezes e coisas piores não ajuda no ambiente.

Havia um copo de água num canto quando acordei e me joguei sobre ele. Deixei o líquido refrescante deslizar pela garganta seca, saboreando-o de uma só vez. Então me apoiei nas grades e meditei sobre minha situação.

Preso numa jaula como um animal. Seria isso o mais baixo que um ser humano poderia chegar? Só posso rir de minha própria desgraça. Bem, ainda é melhor do que me tornar alimento para os carniceiros lá de fora. A não ser que essas pessoas, quem quer que sejam, estejam tão famintas que não se importem de partilhar do mesmo cardápio dos mortos. Já vi isso num seriado. Talvez tenham tirado a ideia dele...

Começo a pensar que jamais verei Raquel de novo, e essa missão talvez tenha sido apenas uma forma mais indireta de me matar. Apesar que seria irônico. Sobreviver àqueles seres, para acabar sendo morto por humanos.

Mas, droga, cadê o maldito do Levi? Será que... Eles o mataram? Não seria de se surpreender. Ele deve ter machucado seriamente alguém enquanto era atacado, e pra se vingar, acabaram com ele... Será mesmo? Merda, merda, merda, merda! Não! Se acalme. Aquele desgraçado não parece alguém que seria morto assim. Ou pelo menos foi a impressão que fiquei.

Espere. Acho que acabo de ouvir algo... Sim!

Tem mais alguém aqui!"

Diário dos Mortos-VivosWhere stories live. Discover now