13 - Ilóricos - Parte 1

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- Você sabe que pregamos a crença centenária de que os ilóricos, seres demoníacos, usam as brechas de nossas mentes, principalmente de pessoas importantes, de certa autoridade e poder, para controlar o nosso mundo. Essa é a verdade. E cremos que eles estão infestando a mente da garota Hannah. "Qual é o propósito?", você pode me indagar. Eu lhe digo, Grinnmann, para corromper todas as Sete. Temos que destruí-la e quem mais estiver contaminada através dela. Todas as ilóricas.

Ela, Airte passeia ao redor de nosso líder e tutor, enquanto o intimida com o olhar e as mãos de gestos precisos. O discurso enfático e ininterrupto que ouço é carregado por uma voz embebida de placidez e austeridade. É ela, a líder de uma religião massiva que só usa azul, e desde que perdeu Dulan, não tem mais deixado Grinnmann e os outros líderes e indivíduos que têm contato com as Sete, em paz. Logo que eu, não por acidente, mas investigando, deparei-me com todas essa fala de Monte Airte, pesou sobre mim a responsabilidade que sempre me incomoda até que eu faça algo. Tem sido assim comigo desde sempre. Uma constante teimosia.

- Martha... Você precisa tomar cuidado, filha.
- É o meu dever, mãe. Se toda mulher desistir diante de um machista em seu caminho... O que será de nós?

Eu defendia o meu labor investigativo para minha mãe. Nós duas de vestidos de gala. Sua roupa marsala ornava tão bem com sua pele branca e os cabelos ruivos. Espero que o meu verde-água escuro com respingos tímidos de diamante estava à altura.

- Eu odeio te fazer temer por mim - continuei ao ver a preocupação latente nos olhos de minha mãe - Mas, eu não posso parar. Sinto muito.

Apertei a sua mão gentilmente.

- Que com essa matéria, você ponha esses editor nojento na cadeia. Ele merece. - Então, ela, Marian, colocou uma aceitação melancólica no rosto, que foi acompanhada de um sorriso pequeno e orgulhoso. Abraçamo-nos enquanto meu pai nos esperava no helicóptero de família.

  Observo através de uma de nossas janelas, a nave que me trouxe até o norte, centro de preservação das Sete. Lembro do zunir desse veículo e de Grinnmann me dizendo que era tempo de guerra. As montanhas amareladas com pouca vegetação, que cercam o pátio que serve de estacionamento, trazem-me uma singela lembrança de alguns lugares do continente africano; o meu lar. Desde criança, ficava imaginando quem seriam e onde estariam meus pais biológicos. Hoje algo me instiga, de forma parecida: me que lugar deste novo mundo, meus progenitores poderiam se encontrar? Ainda não fiz essa pergunta a alguém.  Por não sentir tanta abertura para isso. Apesar de que eles - os diretores do centro - sabem tudo da minha vida. Não é preciso explicar essa minha angústia, se eles tiverem um pouco de sensibilidade. Se entenderem essas inquietações dos humanos, que tanto eles observam.
Outra coisa que me impede de compartilhar esse incômodo é o meu medo de me expor. Sempre fui mais reservada. Diferente de algumas garotas que tenho conhecido desde quando cheguei. As outras Sete, que já se encontravam aqui.
Como a Melanie. Ela era uma líder de torcida, americana, sulista, loira de cabelos cacheados e de sotaque mole (apesar de todas aqui se entenderem em sua língua mãe. Essa garota não tem medo de botar pra fora os seus sentimentos e está sempre sentindo algo. Já a vi chorando pela falta que sente de sua família e sendo levada por outras duas de nós, uma de cada lado, braços dados, doando amparo. Também já vi Melanie morrer de rir com o senso de humor ácido de Punia, nossa irmã indiana. Essa que me explicou:

- Sou da terceira safra das Sete. Sempre viemos em sete mulheres e acordamos em fortalezas espalhadas pelas nações das confederações do norte. Todo grupo tem uma mais velha. Tudo muito parecido com o seu. A diferença é que nunca nos disseram que estávamos predestinadas à liderança. Também nunca explodira o castelinho em que a gente estava e nunca matamos alguém das Gotas. Nome bem legal de seita. Ops. Grupo religioso. Ops. Religião. Queria que as gotas fossem de chocolate. Aliás, saudades.

Saudades. Algo que todas sentimos aqui. Temos saudades das pessoas que amamos. Medo de nunca mais vê-las e de não conseguir protegê-las, como nos disseram ser o nosso propósito. Temos saudades do nosso planeta, de nossas rotinas estúpidas e enfadonhas, de nossos problemas terrenos. Sentimos falta de nós mesmas. Vocês nunca foram da Terra e nem seus familiares, contaram para a gente. Quanto tempo leva para uma verdade dessa ser digerida mesmo após os exames de sangue que nos dão no primeiro dia aqui, provando que temos um DNA alterado. Como nunca descobrimos isso? Aceitar tudo isso é fúnebre. É aceitar que morremos e que precisamos nascer de novo e o nascimento já está ocorrendo a despeito de nosso consentimento. É uma despedida amarga e frustrada. É uma curiosidade vívida.
   Por mais que essa verdade cada vez mais se assenta em nosso espírito, uma parte de nós se recusa a deixar a Terra e tudo o que achávamos sobre nós para trás. Vivemos essa dualidade.
Eu sou a filha adotiva de Marian e Stephen Warren, dois médicos que em uma missão filantrópica acharam uma garotinha birracial muito doente. Eu também sou aquela que ama e é amada. Conheci Agnes no meu primeiro ano de universidade em Londres. Foi no lançamento de um livro de poesias de um dos nossos colegas, que já beirava as entradas do portão de uma verdadeira amizade. Olhares trocados, sorrisos e eu puxei a conversa, com as mãos trêmulas, depois da leitura. Que espírito, o de Agnes! Que mulher!
Falando em mulher, também sou aquela que aceitou estagiar num jornal cujo o editor-chefe tem o histórico de assédios e abusos sexuais contra as mulheres que trabalharam com ele. Fui demitida antes de terminar a matéria e desmaiei antes de pegar o trem pra casa, onde passaria um tempo desabafando com meus pais e também com Agnes, por uma chamada de vídeo. Fechei meus olhos abruptamente e aqui estou. Aqui sou.
Sou aquela que, pelo que dizem, nunca foi da Terra e que tem algumas habilidades fora do comum. Habilidades essas, as quais não me foram explicadas, treinadas ou instigadas até Grinnmann e o conselho ver que eu era confiável. Na própria nave até aqui, quando questionado sobre qual seria o meu poder, o substituto de Dulan disse que a minha habilidade se manifesta somente quando eu tenho ciência dela e que eles logo me explicariam. Eu creio que seria logo mesmo, porém fiz algo que quebrou a sua confiança.

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SETE - Volume I [COMPLETO]Where stories live. Discover now