Capítulo Três

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Marco cerrou os dentes ao seguir Elisa sob os risos dos mecânicos retumbando em seus ouvidos.

O que eu não faço pelo Corvette?, ele pensou, aborrecido.

No caminho, porém, ela fez um desvio até um tanque diferente e agarrou um pano para limpar as mãos. Marco a observou tirar o excesso do que parecia um óleo preto. Depois, Elisa ligou a mangueira e pegou uma esponja.

Ele se surpreendeu com a facilidade com que toda a sujeira pareceu escorrer das mãos dela ralo abaixo. As unhas, no entanto, continuaram manchadas.

– Perto do almoço eu dou um jeito nisso. O quê? Não conhecia as luvas químicas? Melhor coisa que inventaram para limpar as mãos. Todos os mecânicos usam hoje em dia – comentou ela. Alcançando outro pano e se secando, olhou-o por sobre o ombro enquanto passava por ele e acrescentava: – Vamos?

Marco se apressou a acompanhá-la. Não queria suportar nem um minuto a mais dos olhares trocistas dos empregados de Elisa. Tampouco se daria ao trabalho de dizer que "sim, já ouvira falar do produto, embora não o tivesse visto em ação". Era melhor ficar calado e parecer ignorante do que falar e demonstrar a ignorância, como sua mãe sempre lhe dizia.

Eles entraram na recepção, contornaram o balcão de atendimento e foram para os fundos.

Dentro de um escritório pequeno, Elisa encostou a porta e se virou para ele.

– Pronto, Doutor. O que você quer conversar sobre o Corvette?

A princípio, Marco ficou desconfiado. Ela estava séria, e ele se pegou esperando-a agir como... Bem, como Elisa. Quando não aconteceu, ele limpou a voz e afirmou:

– Temos que chegar a um acordo, Elisa. A começar pelo fato de que não devemos espantar o vendedor. Ele ficou bem assustado com a sua abordagem agressiva.

Ao ouvir aquilo, ela revirou os olhos.

– Acordo para quê? Agora sobre a minha abordagem, ela é sempre agressiva, Marco, e se o Sr. Silva tiver algo contra, ele que venha falar comigo. Além do mais, ele sabe que eu tenho razão. Você mesmo viu o estado do carro.

– Se o pobre coitado estiver com medo, vai ser meio difícil ele vir falar com você – retrucou Marco, mas logo assentiu. – Sim, pelo que percebi será um longo caminho até o Corvette ficar pronto.

– Será um longo caminho para ele e para mim – lembrou-o ela. – Vai dar um trabalhão e despender muito tempo e grana. Não é um carro novo, que vem prontinho de fábrica e só precisa das revisões básicas. Sem falar na manutenção, que sempre dará dor de cabeça.

Ele ficou ainda mais taciturno.

– Eu sei disso.

– Será mesmo que sabe? Porque eu tenho as minhas dúvidas. A maioria das pessoas não percebe no que está se metendo quando resolve optar por um carro antigo até se afundar em despesas e lágrimas. – Elisa fez uma pausa para respirar fundo, e então tentou demonstrar que podia ser razoável: – É um conselho de profissional e amiga que eu lhe dou, Marco: será difícil para você conciliar a manutenção dos seus ternos chiques e dos seus sapatos italianos com os cuidados que aquele Corvette necessita. Ele exigirá uma atenção que você vai descobrir não ser tão divertida quanto parece.

– Estou bem ciente dos custos e manutenção, Elisa. – Marco deu um passo até ela, tendo a prudência de manter as mãos nos bolsos já que não tinha certeza se conseguiria se impedir de sacudi-la. O que aquela ruiva achava que ele era? Uma criança mimada? Um irresponsável e ignorante que fazia ofertas a torto e a direito sem sequer analisar as próprias limitações? – Você é quem parece não entender que eu não entro num negócio para perder. Peso os prós e contras muito bem e, quando decido que vale a pena, não dou para trás.

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