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Como já disse, tenho absoluta certeza de que Mago possui uma reserva bem gorda de grana no banco, fruto dos serviços nada ortodoxos que presta para tubarões do lado negro da força do mundo corporativo.

Contudo, nada – absolutamente nada! – no estilo de vida que compartilha com Ritinha e a pequena enfezada Vishnu indicam qualquer tipo de renda bem nutrida; pelo contrário, o casal e a pinscher vivem uma vida no mais saudoso estilo hippie: paz, sexo e muita, muita maconha.

Então, era de se esperar que Mago não dispusesse de um meio decente de transporte, mas, honestamente, mesmo conhecendo-o razoavelmente bem, eu não estava preparado para aquilo.

Após convencê-lo a usar Vishnu e nossa amizade em meus planos, e explicar todos os detalhes a Ritinha, deixamos o prédio carcomido e descemos a rua dois quarteirões. Mago levava Vishnu nos braços, e, alguns passos atrás, Ritinha me falava coisas sobre amor transcendental e almas gêmeas. Segundo ela, meus sonhos eram chamados de algo muito superior e todos nós, que pavimentava o caminho para a relação de minha vida.

- Quando vocês finalmente treparem, será mágico. É como a chave que encontrou sua fechadura, a união plena do macho e da fêmea – ela explicara, emitindo gemidos estranhos que me davam certo desconforto. – Li muito sobre isso, se quiser, te passo o eBook.

Respondi com um simples sorriso sem graça.

Mago tirou um molho de chaves do bolso da bermuda de brim e destrancou o portão enferrujado de um estacionamento que, para mim, mais parecia um desmanche. Pendurado ao molho de chaves, uma folha de cannabis feita em aço balançava como um pêndulo.

Pediu para esperarmos na rua e entrou, esmagando os cascalhos com os chinelos. Não tardou para que retornasse ao volante de um fusca verde alface que, conforme me explicara mais tarde, era uma legítima relíquia de 1982, cujas peças eram todas originais.

Deduzindo que aquela lataria nunca tinha passado por uma revisão ou conhecido as mãos de um mecânico, sentei-me no banco de passageiros, ao lado de Mago, segurando Vishnu no colo. Apesar da resistência inicial, a cadelinha já parecia estar confortável nos meus braços.

A olhar para meus pés, notei que havia um buraco onde, tipicamente, deveria ser o assoalho. Debaixo de mim, eu enxergava diretamente o cinza do asfalto.

- Boa sorte, rapazes – desejou Ritinha, após dar um beijo quente em Mago e se despedir. – E, você, menina, comporte-se – finalizou, dirigindo-se à pinscher.

- Pronto para andar no Incrível Hulk? – Mago me perguntou, puxando o cinto de segurança.

- Cê chama isto de Hulk?

- Não o Hulk de Hollywood, com a cara do Eddie Norton; longe disso! Este é um legítimo Lou Ferrigno do seriado de 1978, sem anabolizantes – ele disse, me dando uma piscadela.

O motor rosnou, emitindo o som estridente típico dos velhos fuscas.

Logo, estávamos ladeira abaixo. Eu me orientava pelo GPS do Google Maps, enquanto que Mago guiava-se pelas minhas instruções.

- Então, deixa ver se entendi – falou Mago, sem desgrudar os olhos do trânsito. – Você vai usar a Vishnu como pretexto para ver a tal veterinária dos seus sonhos, é isso?

Assenti.

- E não seria mais fácil simplesmente chegar na mina e levar um papo?

- Acha que já não pensei nisso? – ralhei. – Acontece que não posso simplesmente chegar pra moça e dizer: Garota, é o seguinte; cê anda assombrando meus sonhos. Seja o que for, caia fora e me deixe em paz. Nem você acreditaria numa história dessas, sacou?

NOS MEUS SONHOSOnde as histórias ganham vida. Descobre agora