Capítulo IX

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Alto Controle

          Metido em calças de pele artificial de tubarão que refletiam as lâmpadas do teto, o garoto avançava destemido pelo corredor da escola. Sua altura o fazia ver todos de cima; seus músculos rígidos abriam passagem pela multidão feito navalha em manteiga. Alguns garotos prontamente abaixavam a cabeça e se afastavam quando o viam se aproximar. Quando isso acontecia, ele repuxava um canto dos lábios num sorriso sardônico.

          Alguns metros à frente, ele cruzou com um grupo de belas garotas de cabelos verdes que conversavam escoradas numa parede do corredor. Descaradamente, o rapaz observou-as com olhos faiscantes de desejo.

          Quando uma delas percebeu, cochichou para as outras e logo as quatro garotas dedicavam-se a estudá-lo com atenção. Então, a de rosto mais charmoso dentre elas acenou-lhe.

          O sorriso do garoto se aprofundou nos lábios bem delineados. Sem perder tempo, seguiu em direção a elas. No meio do caminho, porém, as quatro garotas, de repente, transformaram-se em dois casais se beijando apaixonadamente, ora ou outra abrindo olhos zombeteiros para observá-lo.

          Com os punhos cerrados de humilhação, ele deu as costas e arremeteu como uma flecha pelo corredor. Tomado pela fúria, sequer reparou quando esbarrou no homem e jogou-o ao chão.

          O zeta responsável pela limpeza caiu sobre o próprio balde, com os alunos fugindo aos saltos e risinhos da água suja que se espalhava pelo meio do corredor. Toda a perna direita do velho faxineiro ficou ensopada, assim como um dos tênis do rapaz.

          — Olha por onde anda, seu debiloide miserável! — gritou de mandíbulas apertadas.

          — Me desculpe, senhor. Me desculpe. Me desculpe. — De joelhos na água suja, o miúdo velhinho zeta curvava a cabeça sem parar.

          — Desculpas não vão secar meu tênis, debiloide. — Ele pousou a sola do tênis molhado no rosto do homem e empurrou-o na direção do chão.

          Soltando um gemido desamparado, o zeta perdeu o equilíbrio e estatelou-se de flanco no piso; sua camisa absorvia grande parte da água escura que restava.

          Algumas pessoas ao redor riram, enquanto outras emitiram notas de censura. O garoto ignorou ambos. Preparava-se para voltar a seguir pelo corredor, quando aconteceu. Como um líquido espesso e frio, a culpa o invadiu de todos os lados, inundando sua mente até submergi-lo em dor e arrependimento insuportáveis. Sua visão do corredor foi nublada pelas lágrimas que escorriam sem parar. Toda sua face se contraiu com aquele sofrimento. Incapaz de reagir, suas pernas perderam as forças e ele tombou de joelhos diante do zeta, implorando perdão.

          — Ei, o que aconteceu com o Rorge? — disse um dos alunos, rindo.

          Rodeado por uma curiosa plateia, o velhinho fitou aquela pilha de músculos e confiança que um dia fora Rorge se desfazer em uma geleia deplorável, suplicando perdão enquanto beijava seus pés.

          Enquanto isso, na parte mais afastada do corredor, apoiado de costas num dos pilares de concreto, um jovem de cabelo cinza escuro contemplava a cena em silêncio. Seus olhos eram lagos frios de cores díspares. Os alunos cruzavam correndo por ele, desejosos de compartilhar o espetáculo que se desenrolava mais a frente. O garoto, no entanto, encaminhou-se para o lado oposto; a suave matiz de um sorriso moldando-lhe os lábios.

*

          Amber puxou sua cadeira para trás e acomodou-se no lugar, o último da primeira fileira, no lado das janelas. Ele estava no terceiro andar, e ao olhar para fora, podia ver o mesmo céu plúmbeo que o acompanhara no caminho até a escola. No horizonte, divisavam-se luzes vermelhas piscando no alto da muralha metálica a qual cobria a cidade, parcialmente oculta pela silhueta de prédios que formava o cinturão da área central.

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