13.

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Foi de madrugada quando eles nos encontraram. Colocaram um saco preto na cabeça de Raul e outro na minha. Eu gritei. Escutei os gritos de Raul a cada instante mais longe. Estavam me levando para um lugar e ele para outro. Não nos deixariam juntos. Isso era óbvio, mas ainda assim doía.

Acordei toda machucada no chão de um quarto todo branco sem portas, sem janelas, a única coisa que havia ali era uma pequena privada. Eu sentia que uma força estranha me forçava em direção ao chão. Eu não conseguia levitar. Estava cansada de tantas lutas. Eu desejava a paz. Eu me deixei cair no chão e me entreguei às dores. Tentava me apegar na memória de Raul e do nosso tempo juntos. Busquei fazer as fortes magias que tinha aprendido, mas parecia inútil. Parecia impossível praticar magia ali. Havia alguma força poderosa que parecia sugar toda minha energia. Eu me sentia fraca e sozinha no mundo.

Comecei a gritar por ajuda e nada. Nada. Eu devia estar em algum tipo de prisão de segurança máxima e tinha certeza que ninguém podia imaginar que eu estava ali. Comecei a tentar me comunicar com Raul de forma efetiva. Mas não conseguia contato nenhum. Ele devia estar em algum lugar isolado do mundo, como eu.

Eu não sei quanto tempo havia se passado. Aquele quarto branco me enlouquecia e podiam ser horas ou meses. Não fazia ideia. Com o tempo deixei de insistir na prática de magia. Nada funcionava ali. Não é com orgulho que eu confesso que fiquei sentindo pena de mim mesma, mais uma vez eu acariciava meu sofrimento. Com o tempo até parei de me alimentar com frequência. Muitas vezes, por alguma magia, surgia um prato de comida ali, não era raro eu não dar nem uma garfada. Ainda assim, por algum motivo, eles continuavam me alimentando.

O silêncio absoluto daquele lugar tinha começado a me irritar e por isso comecei a batucar nas paredes e no chão, acho que estava perdendo minha sanidade mental. Passava horas batucando e cantando. Foi num desses batuques que percebi que havia um espaço oco em um canto. Senti uma energia dentro de mim percorrer meu coração. Valia a pena tentar.

Voltei a me alimentar, precisava recuperar um pouco da minha força, já que as magias continuavam impossíveis. Comecei a bater de forma insistente naquele canto e no restante do tempo me exercitava. Comecei a me sentir mais disposta e revigorada. Insistia em bater. Nada acontecia. Com o passar do tempo, apesar da parede continuar intacta, minha mão foi criando algum tipo de casca resistente e deixou de sangrar tanto. Permanecia batendo com rigor, era tudo o que eu tinha, portanto insistiria até o final dos meus dias.

Não sei calcular quanto tempo depois notei uma pequena rachadura. Minha alegria foi tamanha que chorei. Logo imaginei que podia haver alguém me assistindo e tentei arrancar meus cabelos para que parecesse desespero e não alegria. Continuei batendo e batendo e a rachadura fez cair um pedaço da parede. Assim que isso aconteceu eu senti imediatamente uma energia gigante invadir meu coração. Entendi que minha magia tinha voltado. Eu já não sentia aquele peso de antes. Eu me teletransportei para muito longe dali. Estava na casa dos meus pais.

Meu pai quando me viu deu um grito louco de alegria e me agarrou em seus braços, sentia suas lágrimas molharem minha pele e seus beijos por todo meu rosto.

— Você está viva! Você está viva! — ele gritava entusiasmado.

Percebi que mamãe também estava em volta de mim me abraçando e me beijando.

Choramos muito. As lágrimas não pareciam ser suficientes. Era muita emoção. Ficamos por ali abraçados sentindo a respiração e o coração batendo.

— Raul? — perguntei, assim que consegui recuperar um pouco minha emoção. Minha mãe olhou para baixo, meu pai desviou o olhar. — Raul? — insisti.

#ACREDITE (VENCEDOR DO #THEWATTYS2018)Onde as histórias ganham vida. Descobre agora