Lembrança de amor antigo

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Isa tirou uns dias de férias e foi para a casa dos pais no interior. A rotina do trabalho, doutorado e projetos pessoais deixaram ela tão cansada que mal teve tempo de planejar uma viagem um pouco mais complexa. Pensou então em passar um tempinho com a família e quem sabe rever alguns amigos das antigas. Já estava de bom tamanho!

Ela era uma menina super organizada, estudiosa, concentrada, bem racional. Não à toa se tornou professora e hoje dava aulas em uma grande universidade pública, no curso de Letras. Até porque, na adolescência, já havia aprontado demais, e simplesmente enjoou. Viu que na vida não vale a pena certos arroubos, paixonites, que não levam a lugar nenhum. Guardava esses desejos para os poemas, e na vida real era uma cética. Ela até teve uma, aos quinze anos, mas não gosta nem de lembrar...

Só que a vida tem das suas armadilhas. E quem tenta fugir da lembrança, por ela às vezes é surpreendido (ou assombrado). E essa é a história que vou contar.

A HISTÓRIA

Em um dos dias em que estava na cidade dos pais Isa marcou com uma amiga de ir em um evento em um jardim da cidade. Lá haveria food trucks, shows, e uma turma animada. A ideia era ir, dançar, comer e bater papo. Só isso. Porque Isa estava em uma fase solteira convicta e não queria saber de pegar ninguém! (Chegou a ser casada por um tempo, mas acabou se separando. Amigavelmente)

Só que a amiga de Isa, enrolada como sempre, acabou se atrasando, e mandou um zap dizendo que chegaria mais tarde. Sozinha ali, no meio daquele monte de gente (porque sim, é possível ficar sozinho em meio a multidão), Isa lembrou que era ali, naquele mesmo jardim, que viveu quatro anos daquela que foi a única paixão da sua vida. Melhor: a única que durou um pouco, porque até houve outra, mas não passou nem de quatro meses.

As recordações invadiram o coração de Isa como flechadas no peito. Ela, que pegou ódio de vocabulário brega sentimental exagerado estilo segunda fase do romantismo, foi obrigada a admitir. Eram flechadas sim. Como que depois de mais de uma década afastada daquele homem (menino na época), ela ainda sentia aquilo. Impossível!

Ai, era possível...como em Amor Marginal, de Jhonny Hooker. "Meu amor, me faça acreditar que tudo é possível". Por quatro anos, dos 15 aos 19, a vida tinha sido uma grande confusão de términos e reencontros, de uma paixão que fez Isa perder a cabeça sei lá quantas vezes. A primeira vez, as cartas românticas, e até aquela fita cassete com músicas de Roberto Carlos que ele mandou...Nossa, tudo voltou para a cabeça de Isa naquele instante! Pra cabeça, e não pro coração, leitores.

Ela passeou com os olhos pelo jardim e viu um banco que, pasmem, mesmo depois de mais uma década ainda existia ali! Um dos que eles costumavam sentar para namorar. Afinal, foram quatro anos se pegando naquele lugar né, então vários bancos foram contaminados por aquele casal! Eram beijos demorados e misturados com conversas, carinho, olhares perdidos no horizonte, de tudo um pouco. Isa se perguntou: como duas pessoas tão diferentes puderam se interessar tanto uma pela outra? Isa era estudiosa, ele matava muuuita aula. Por outro lado, adorava esportes, enquanto ela tirava nota vermelha em educação física! Uma coisa meio Eduardo e Mônica, de Legião Urbana, rs.

Distraída no meio desse pensamento, Isa não percebeu que um homem se aproximava dela. Um moreno, estatura mediana, camisa preta, calça jeans. Nada demais. Nem era bonito, mas tinha certo charme. Enfim, um cara comum.

Quando foi dar um passo em direção ao banco, pensando em talvez sentar e pensar um pouco mais no passado, o homem a abraçou por trás e deu um tremendo susto! Mas nem tanto, porque rapidamente Isa percebeu de quem era aquele abraço. Foram uns vinte segundos de um silêncio profundo e olhos fechados. Na mente, "Você não me ensinou a te esquecer", que um dia embalou de leve aquele casal, quando assistiram Lisbela e o Prisioneiro. Caramba, era ele ali de novo! Como que pode!

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