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"Divide as dificuldades que tenhas de examinar em tantas partes quantas for possível, para uma melhor solução." René Descartes.

Daniel

Com a primeira onda de vibração emitida pelo celular, eu já estava acordado. Não encontrava o aparelho, que tremia sem parar, tinha dormido de qualquer maneira e, ao procurar o travesseiro sob o qual costumava deixá-lo, percebi que eu estava bem abaixo da cabeceira, os pés fora do colchão.

Eu me voltei, fiquei de joelhos sobre a cama e engatinhei, alcançando o celular.

— Alô? — atendi estranhando minha própria voz, rouca pelo sono. Sequer tinha conferido o visor, tombando novamente sobre o colchão.

— Sr. Romano?

— Ele — resmunguei.

— Meu nome é Manuela, falo do Hospital Padre Victor Ludock.

Ao ouvi-la, abri os olhos, surpreso e preocupado.

— Aconteceu alguma coisa? — perguntei.

— Não, senhor. Dr. Caiado pediu que eu entrasse em contato e informasse que sua esposa acordou. Ele está pedindo que o senhor venha vê-la esta manhã, antes do encerramento do plantão.

Retirei o aparelho do ouvido e conferi as horas no visor, seis e dez.

— A que horas ele encerra?

— Às sete.

— Estarei aí antes disso, obrigado.

— Disponha, Sr. Romano.

Joguei o aparelho sobre a cama, esfreguei os olhos, bocejei e ergui o tronco, esticando-me todo. Então saltei sobre os pés, andei em direção ao banheiro e retirei a camisa no caminho, soltando-a de qualquer maneira sobre a cômoda.

Quando alcancei o boxe, já estava nu. Ainda meio sonolento, abri a porta e cambaleei para dentro, abrindo o registro ao máximo.

Somente depois de molhar o rosto e os cabelos, eu me permiti pensar na ligação que tinha acabado de receber. Suspirei aliviado, que bom que Aline tinha acordado. Quanto mais rápido ela se recuperasse, melhor para todos — disse a mim mesmo e então me concentrei no banho. Descarreguei sabonete líquido na bucha e esfreguei todo o corpo rapidamente. Não podia perder tempo com reflexões, precisava chegar ao hospital antes das sete.

Enquanto ensaboava os cabelos, porém, os pensamentos, de novo e sorrateiramente, se esgueiraram por minha mente. Passei por um segundo de pânico ao pensar no que o médico diria — para ter me convocado àquela hora da manhã, devia ter algo importante a dizer —, mas empurrei para um lado a apreensão, afinal havia dias o quadro dela tinha se estabilizado.

Aline ficaria bem.

Eu ficaria bem.

Todos ficaríamos bem.

...

A porta do elevador se abriu, e dei dois passos à frente, deparando com minha própria imagem no espelho, ao fundo. Observando minha aparência, eu me recordei de que havia planejado passar pelo barbeiro antes de ir ao hospital; o chamado do médico logo ao amanhecer tinha precipitado minha saída, obrigando-me a mudar os planos.

Um timbre curto e agudo me resgatou dos pensamentos, e eu me virei, recostando-me ao espelho. Vi a porta a minha frente se abrir e logo duas mulheres, vestindo roupas verdes e grosseiras, entravam. Elas continuaram a conversar, aparentemente alheias à minha presença, e eu tampouco me incomodava com a delas. Meus pensamentos já estavam alguns andares acima, antecipando-se a mim.

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