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Foram os três dias mais longos de toda minha vida. Eu tinha um medo terrível de ser exilada. Se eu sumisse do nosso mundo, Raul poderia morrer, meu pai poderia morrer e mamãe também. Todos aqueles que eu mais amava no mundo poderiam morrer. Atentado a paz pública era algo terrível demais para eu ser acusada. Que droga era essa paz pública? Na minha opinião eu tinha trazido a paz, mostrando que lalulis e braites poderiam viver juntos sem que a magia dos braites fossem afetadas. Podíamos ser um só povo, sem distinção, sem divisão, um povo com magia forte e verdadeira, um povo que vivia pelo amor e não pelo medo. Eu era a própria causa da paz pública e não o contrário.

Eu estava sozinha no sofá absorta em meus pensamentos quando senti um movimento e notei que papai e Raul sentaram ao meu lado.

— Chegou o dia — disse meu pai sério.

— Eu sei — respondi igualmente séria.

— Pam, vai dar tudo certo — Raul me disse com um sorriso.

— Eu não sei — respondi. — Dessa vez eu não sei mesmo.

— Pai, há algum motivo para os braites quererem viver separados dos lalulis?

— Claro que há. Eles têm medo de perder sua magia — ele falou tenso.

— Eu perdi, mas há um jeito de resgatá-la e até fortalecê-la — falei fazendo com que nós três levitássemos e também o sofá.

— Mas qual é esse jeito? — meu pai perguntou.

— É difícil de explicar... — respondi e voltei o sofá ao seu lugar de origem. — Raul, flutue — pedi.

Raul não conseguiu.

— Raul levite — insisti.

— Não consigo, Pam — ele falou triste.

— É claro que consegue! Você já levitou, lembra? Você precisa conseguir, Raul! Você precisa mostrar hoje para todos eles — comecei a gritar sem perceber. — Você precisa, Raul! Por favor, flutue agora!

Raul tentou e nada. Saiu da sala nervoso.

— Você está forçando a barra com ele, Pam — constatou meu pai.

— É que ele precisa, Pai. Só assim os mestres poderão ver que não sou só eu, entende? — respondi com os olhos cheios de lágrimas, me machucava insistir com Raul, mas é que eu achava que a vida de todos nós dependia de alguma forma disso.

— Pam, ele não precisa flutuar — ele disse pegando em minha mão. — Você só precisa explicar a todos como você faz para manter sua magia.

Comecei a soluçar.

— Eu não sei — falei com a voz embargada. — Eu achava que era o amor, talvez seja em parte, mas não é só isso, há alguma coisa a mais que eu não sei.

— Pense com calma, Panqueca. A resposta sempre está dentro da gente.

— Como você faz para manter a magia, Pai?

— Você me ensinou, Panqueca. Você me mostrou que Raul não vai prejudicar nossa magia. Foi você.

— Mas como é que eu fiz isso, Pai? — perguntei apertando forte suas mãos.

— Você o ama de verdade, Pam, deve ser isso.

— É mais que isso. Eu o amava no começo também, mas isso não serviu de nada. Tem o amor, isso é importante, eu sei, mas tem alguma coisa a mais, só não sei o que é, Pai — falei nervosa.

#ACREDITE (VENCEDOR DO #THEWATTYS2018)Onde as histórias ganham vida. Descobre agora