Capítulo III - Episódio 14

22 1 0
                                                  

Próximo ao portão principal que divide a Cidade Alta e o Distrito Operário fica o Quartel da Guarda, onde todos os guardas da cidade se reúnem para se preparar, descansar e receber suas missões.

Com a entrada virada para o Distrito Operário, o quartel foi montado em diversos andares.

O andar superior é o andar da guarda de cerco, onde os guardas que protegem a muralha se organizam. Das portas do quartel, é possível sair na muralha da cidade e contorná-la por inteiro, tanto pelo Distrito Operário quanto pela Cidade Alta. Lá de cima, os soldados podem proteger a cidade com suas bestas, caso precisem, usando as ameias como proteção.

Na volta que contorna a Cidade Alta, há também uma conexão com a Ala Mestra da Torre de Pedra, onde os magos-de-batalha também podem se posicionar sobre a muralha para ajudar na defesa da cidade.

No andar inferior, fica a parte principal do quartel, com quartos, salas de treinamento, refeitórios e outras salas necessárias.

Sob o quartel, no subsolo, ficam as prisões. Um lugar úmido e fedido, cheio de ratos, baratas e vazamentos. Antigo esgoto da cidade na época em que mar estava por ali. Naquele lugar, só os mais desafortunados vivem. Aqueles que prefeririam ter morrido a passar o resto de suas vidas encarcerados na prisão de Porto das Pedras.

Pelo corredor da masmorra, uma silhueta caminhava carregando uma tocha. A passos curtos, ela seguia pelos corredores umedecidos e cheios de musgos. Os prisioneiros suplicavam por comida e liberdade, mas a pessoa que por ali andava ignorava a todos. Quando chegou no fim do corredor, encontrou uma última porta.

Não era uma porta para uma cela comum e nem uma entrada para qualquer outro lugar. Era um portão velho que não era aberta havia muitos anos.

Ela abriu o primeiro cadeado e empurrou o portão de barras metálicas. Depois o segundo. Depois o terceiro. Andou mais um pouco até encontrar um lago quadrado e ali esperou.

Do outro lado da sala, uma segunda silhueta surgiu carregando uma lanterna a óleo.

— Anita — disse Derris, tapando o nariz para não vomitar. — Que lugar delicioso para um encontro.

— Lugar seguro — disse ela balançando o molho com três chaves. — E o seu amigo?

— Ele virá sozinho.

Os dois se abraçaram.

— Conseguiu deixar a carga onde eu falei?

— Sim. E o que faço com as outras? Teremos uma dessa a cada ciclo solar.

— Deixe no mesmo lugar.

Anita esperou ouvir passos no mesmo corredor por onde Derris veio, mas só conseguia ouvir o gotejar da umidade nas diversas poças que havia naquela sala.

Em silêncio, esperaram até surgir a terceira pessoa daquele encontro secreto. Borya surgiu no fim da sala, no mesmo caminho que Derris havia feito.

— Senhores — disse ele, também incomodado com o cheiro. — Não podemos conversar em um local mais agradável?

— Não será agradável — disse Anita. — Mas será melhor que aqui.

Atravessaram os três portões e chegaram na prisão. Em frente a cela vazia, pararam e começaram a reunião.

— Tudo certo com o que combinamos, Derris? — Perguntou Borya. — Precisamos sincronizar os tempos e mandar meus pombos.

— Sincronizar? — Anita estava mais perdida do que curiosa.

— Sim. Preciso preparar meus homens para pegar as armas. Não pode haver erro. Minha reputação está em jogo.

Anita fulminou Derris com o olhar e ele deu um sorriso amarelo para ela.

— Certo — continuou Derris, voltando para Borya. — O que tenho para você ainda não está completo, mas estamos quase chegando em algo. Me dê mais um ciclo solar e acho que já poderei te mostrar algo útil.

— Sim — continuou Borya. — Preciso dessa garantia. Aguardo seu contato o mais rápido possível.

Sem mais palavras, ele se virou, atravessou os três portões e desapareceu.

— O que é isso, Derris? — Anita perguntou furiosa. — Você vai entregar as armas para ele? Nosso experimento? Tudo que fizemos?

— Não irei simplesmente entregar, Anita, irei vender. Terei tanto dinheiro que poderei ficar independente do meu pai, se eu quiser.

— Não estamos fazendo isso por dinheiro, Derris.

— Não estamos, é apenas um meio. Com dinheiro podemos ir mais adiante, ousar mais.

— Não! — Anita gritou, ainda mais furiosa. A sua voz ecoou pelos corredores da prisão. — Você vai entregar isso para os homens brancos, Derris. Eles já têm a magia. Agora que meu povo tem uma esperança, é isso que você vai fazer?

— É apenas um passo, Anita. Não é o fim. Iremos ainda em frente.

— Não posso aceitar isso! Saia daqui!

— Anita — Derris tentou se aproximar, mas Anita se afastou.

Desiludido, Derris também atravessou os três portões e desapareceu. Anita os fechou, furiosa, mas dessa vez teve cautela para não fazer mais barulho e chamar a atenção dos outros guardas.

Ao fechar o último portão, Anita sentiu como se tivesse expulsado seu último amigo. Como se aquelas três grades fossem separá-los para sempre.

Por um instante, pensou em abri-las e correr atrás de Derris, mas o orgulho falou mais alto.

Virou-se e seguiu por um caminho diferente. Em vez de voltar para o quartel, andou por outro corredor ainda mais em direção ao fim da prisão. Lá ficavam as piores pessoas que a cidade já teve.

Parou em frente à cela que procurava. Nunca esteve ali, mas sabia pelo número pregado sobre a porta. Essas eram celas maiores. Ali, tão longe do quartel, em algumas vezes, os soldados deixavam de alimentar os prisioneiros por preguiça ou medo de andar até ali.

— Você já me causou muita dor — disse ela, olhando para o escuro da cela. Em algum lugar, alguém estava escondido nas sombras.

— Você me parece llanure demais para estar contra mim — disse pausadamente a voz cansada saindo das sombras.

— Eu sou morena demais para você ter feito o que fez — respondeu com a garganta apertando. — Seu caolho enrugado de merda.

Os dois ficaram em silêncio. Os sons dos pingos caindo do teto de pedra tomaram conta mais uma vez do ambiente. Gemidos de homens aos prantos e outros que sofriam de diversas doenças também iam e vinham pelos corredores.

— É curioso — continuou Anita — que, ao mesmo tempo que discordo, eu concordo. Em alguns momentos da vida ficamos entre o certo e o errado.

— E o que é certo, Nani? Prateleiras cheias de comida enquanto milhares passam fome e vivem na miséria?

— Nani — respondeu com um sorriso. — A última pessoa que me chamou assim foi minha mãe.

O silêncio tomou conta dos corredores mais uma vez. Lembrar da mãe em sua infância era uma parte de suas recordações difícil de tocar. Ainda mais na frente do homem responsável por tirar a vida dela.

— Para mim, sua sentença deveria ser a morte. Já entrei várias vezes nesta prisão com uma besta para dar fim a sua vida.

— Seria um alívio — continuou o homem gargalhando baixo. — Prefiro a morte ao cárcere... ou à escravidão.

— Digamos que o primeiro já não é mais um problema para você. Vivemos de favores. Faça algo para me provar que não precisarei me arrepender disso e te caçar até o fim do mundo.

Anita jogou o molho de três chaves entre as grades. Em seguida abriu aporta da cela, virou de costas e desapareceu.

A saga dos filhos de Ethlon I - Porto das PedrasOnde as histórias ganham vida. Descobre agora