Capítulo VIII

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Comutação

          Era como se houvesse sido posta uma válvula em seu cérebro e agora ela estivesse aberta, jorrando todos aqueles fragmentos de memórias esquecidas sobre Jill.

          Numa súbita onda de dor, ela agarrou os cabelos, trombando nos colegas que iam e vinham pelo corredor da escola. Ao chegar à porta da sala ao lado, vasculhou os rostos dos estudantes sentados. Nenhum era o de quem ela procurava. Ela então decidiu perguntar. Agarrou o braço de um garoto, que no momento estava saindo da sala, e interpelou-o bruscamente.

          — Joe — disse a ele. — Você conhece alguém chamado Joe que estuda nessa classe? Onde ele está? Você o viu?

          O garoto arregalou os olhos alaranjados para ela, olhando para o lugar do braço em que era segurado. Sob seu queixo, alguns fiapos de pelos loiros tentavam se passar por barba.

          — Joe? — respondeu ele. — Claro que conheço.

          — E onde ele está?

          De repente, Jill liberou o garoto e segurou a cabeça com ambas as mãos, rangendo os dentes.

          — Onde? — repetiu, num sussurro exasperado.

          — Não sei — disse o garoto, franzindo o cenho como se aquela fosse a primeira vez que percebesse o que havia de errado. — Agora que mencionou isso, já faz quase uma semana que ele não aparece na aula. Isso é estranho...

          Não sou apenas eu, refletiu Jill Oris, ainda mais perturbada. Em sua mente, os traços do rosto de Joe surgiam borrados, incompreensíveis. Esquadrinhando suas memórias, ela podia sentir o vazio do que estava faltando, como se sente o buraco de um dente perdido quando passamos a língua por cima dele.

          — Ei, posso ir agora? — O garoto procurava um espaço pelo qual escapulir de Jill.

          — Quando foi a última vez que viu o Joe? — insistiu ela.

          E então, como se nuvens de repente cobrissem o sol, os olhos do garoto foram nublados pela confusão.

          — Joe? — disse, sorrindo. — Quem é esse?

          Ela recuou, levando as mãos rígidas ao rosto. Sua mente navegava num mar caótico de memórias turvas e pensamentos desordenados. Antes de se afastar dali, o garoto dedicou-lhe um olhar desconcertado. O que estava acontecendo?

          Sentindo-se cada vez mais encurralada, Jill adiantou-se na direção de um grupo de garotas sentadas nas mesas próximas à porta. Ela lembrava vagamente de já ter conversado com algumas delas. Interrompendo a conversa, num tom descontrolado, ela disse:

          — Joe Dish, Joe Dish, vocês o conhecem?

          As garotas entreolharam-se, indagando-se umas às outras. Então, uma delas, que tinha cabelos verdes, falou:

          — Não, acho que não. Conheço um Joe Palmares, da turma 3-7. Por que, Jill?

          Ela engoliu em seco. Forçou um sorriso.

          — Não, nada não.

          Sem saber se era ela ou o mundo que estava enlouquecendo, Jill saiu da sala e vagueou a esmo pelos corredores, lágrimas espremidas nos cantos dos olhos, como uma menininha perdida num mundo incompreensível. Ao fazer a curva para o corredor dos armários, esbarrou em alguém. Murmurou um pedido de desculpas por reflexo e já ia se pôr a andar novamente, quando a pessoa agarrou-a com força, impedindo seu avanço. Ela ergueu o rosto e encontrou Amber, mirando-a com uma expressão preocupada.

          — O que houve, Jill? Por que está chorando?

          — Amber... Amber... — E incapaz de articular seu tumulto, ela começou a chorar pesadas lágrimas sobre os ombros dele, apertando-o contra si.

          Ele abraçou-a, transmitindo seu calor a ela.

          — Está tudo bem agora, Jill — disse, numa voz aconchegante como seda aos seus ouvidos. — Eu estou aqui. Eu estou aqui.

          — O Joe, Amber — murmurava ela, entre soluços. — Eu esqueci do Joe. Como pude ser tão má?

          — Do que está falando, Jill? — Ele acariciava seus cabelos. — Você não esqueceu de nada. Não há nenhum Joe. Nunca houve. Por que está chorando?

          De repente, ela começou a fungar, acalmando-se.

          — Eu não sei o que deu em mim... Parecia que eu tinha esquecido de algo muito importante, tão importante que a confusão tinha se transformado em dor, arranhando meu peito... Eu, eu...

          — Shhh... Está tudo bem agora. Estou aqui.

          Ela ergueu o rosto a fim de fitá-lo.

          — Caramba, não sei como pude me descontrolar assim por algo tão idiota. — Ela então escondeu o rosto no ombro dele. — Desculpa por ter feito essa cena. Deve estar pensando que sou uma doida varrida...

          — Claro que não. Deixe de ser boba.

          Ela sentiu os dedos dele em seu queixo, puxando-o para cima. Logo, estavam se olhando nos olhos de novo. O perfume dele acariciou o interior de suas narinas, agradável. Num movimento sincronizado, ele se inclinou para baixo, ela, para cima, e seus lábios se reuniram num beijo salgado.

*

          Naquela noite, sozinhos no quarto de Amber, os dois rolaram de um lado para o outro sobre os lençóis; seus corpos jovens e nus entrelaçados como vinhas humanas em chamas; suas peles friccionadas produzindo calor e incendiando de libido as paredes do quarto. O ar estava carregado com um perfume peculiar: uma mescla do odor íntimo de seus corpos a se amarem e dos livros espalhados por ali.

          Os movimentos de Jill eram de absoluta entrega a Amber, repletos de uma paixão extasiante que anuviava seus pensamentos e fazia seu corpo arquejar sob o dele. Enquanto, sobre ela, em contínuo movimento, ele era vigoroso e honesto, cedendo à veemência daqueles sentimentos tanto quanto ela. Seus olhares mantinham-se unidos por um fio invisível, devorando-se mutuamente na euforia de sua avidez.

          E nessa comutação de calores e carícias, de ímpetos e ritmos, velados pela noite e pelo cansaço, os dois adormeceram nos braços um do outro.

          Algumas horas depois, na escuridão ambígua que precede o amanhecer, Amber levantou-se e abriu a janela do quarto. Um vento frio invadiu o aposento e lambeu-lhe o peito nu. Escorado no parapeito, seus olhos desiguais fitaram o nascer do sol expulsar com raios esperançosos as trevas do mundo. Porém, aquelas dentro dele, mais negras do que a própria noite, permaneceram inabaláveis, sorrindo-lhe em escárnio.

          — Quem é você?

*

          Em uma sala mergulhada em penumbra esverdeada, um grupo de silhuetas se reunia. Distribuídos ao redor de uma longa mesa metálica, suas formas obscuras espreitavam o homem sentado na ponta mais distante. O homem, por sua vez, analisava o mapa que se projetava tridimensionalmente acima da superfície da mesa. As lentes de seus óculos, negras e redondas, absorviam a luz esverdeada do holograma sem devolver qualquer reflexo.

          — Continuaremos observando e aguardando — anunciou ele de repente, enquanto sua voz roufenha se distorcia eletronicamente na última sílaba.

          — Todos de acordo?

          Com os lábios cinzentos crispados, ele observou o grupo anuir em silêncio e então, com um sibilo, dissipar-se em pleno ar.

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