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Eu sempre senti muito a energia dos braites e lalulis, apesar de não me importar tanto com a natureza dessa energia. Eu sentia em mim suas dores, suas alegrias, sua paixão, seu entusiasmo, mas também seu ódio.

Eu senti que os braites sempre alegres e para cima, claramente sem querer, já que tudo que foram ensinados na vida era emanarem sentimentos leves e felizes, vibravam ódio. Sim, pura raiva. Eu via no olhar deles toda vez que eu ou Raul passávamos em algum lugar do gueto dourado. Não era bom para eles, evidentemente que não. Não era bom para mim, para Raul, para minha família, claro que não, mas foi tudo necessário e importante, sempre é, o caminho guarda sempre as lições que precisamos aprender.

Alguém batia forte na porta de casa. Eu e papai nos entreolhamos aflitos. Já tinha uma semana que estava em casa. Estava mesmo na hora de alguma coisa ruim acontecer. Foi meu pai que abriu a porta e lá estava o Secretário Chefe do Conselho de Mestres.

—Senhor Fred Morning Star?

— Sou eu — papai respondeu apreensivo.

— Tenho uma correspondência do Conselho de Mestres para o senhor — ele falou entregando a carta.

Papai olhou inquieto para correspondência, agradeceu, fechou a porta e foi em direção ao sofá. Sentou ao meu lado.

— Vamos ler juntos? — ele perguntou olhando para mim e Raul — Nós dois assentimos. — Caro senhor Fred Morning Star — ele falou austero. — Em razão das boas normas de convivência e prosperidade estabelecidas em nossa Comunidade e tendo chegado ao nosso conhecimento de que há energia laluli na sua residência, solicitamos sejam tomadas as devidas providências para que a energia seja 100% braite. Certos do seu entendimento, assinado Presidente do Conselho de Mestres, Senhor Arthur Heartstone.

— E agora? — Raul perguntou aflito.

— Nada acontece — meu pai respondeu calmo.

— Mas pai se ficarmos aqui... — falei sem ter coragem de completar a frase.

— Nada acontece — ele repetiu.

— E se ele vieram aqui e nos expulsarem? — perguntei, enfim.

— Vamos manter sempre nossa posição não importa o que aconteça. Foi você quem me ensinou, Pam, é um erro essa separação. — Ele piscou para mim.

Olhei para Raul para entender como ele se sentia. Ele sorriu confiante e me abraçou forte.

— Somos fortes — Raul sussurrou no meu ouvido. — Se esqueceu que flutuamos juntos naquele dia?

— Isso nunca mais aconteceu — respondi só para saber sua opinião.

— Mas pode acontecer de novo, entende? — ele disse convicto.

Olhei para Raul admirada. Ele acreditava mesmo. Um estalo aconteceu dentro de mim. Como é que eu não tinha visto isso antes? Como? Era isso tudo o que precisávamos.

***********

Sempre era difícil quando tínhamos que sair de casa, mas dessa vez doeu ainda mais.

Eu, Raul e minha mãe entramos no bonde voador. Nós tínhamos que ir para escola e minha mãe queria comprar algumas coisas perto de lá e resolveu ir com a gente.

Vi que a Lola me viu. Ela me encarou triste e virou a cara para janela. Acho que doía nela ver o caminho que eu tinha escolhido para mim e parecia que me julgava por eu condenar minha família ao mesmo destino que o meu. Só havia bancos no fim do bonde voador, por isso tivemos que caminhar pelo corredor até o fim. Foi aquele vizinho Braite ruivo idiota, que eu sempre odiei, que resolveu ser babaca. Ele atravessou o pé na frente de Raul que caiu com tudo no chão.

#ACREDITE (VENCEDOR DO #THEWATTYS2018)Onde as histórias ganham vida. Descobre agora