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Em silêncio, observei Mago enrolar a erva na seda. Ele manipulava o baseado como um verdadeiro artesão, com toda meticulosidade possível. Quando acabou colocou o baseado nos lábios, acendeu e deu uma longa tragada. Depois, me estendeu o cigarro e fiz o mesmo.

Quanto mais fundo se traga, mais forte e rápido o efeito bate. Portanto, em poucos minutos, sentia-me relaxado, espichado sobre o sofá de tecido gordurento de Mago enquanto ele, sentado ao meu lado, teclava agilmente o notebook, que estava sobre a mesinha de centro.

- Então, você tá com encrenca com essa mina, Túlio? – perguntou-me Mago, olhando para mim de soslaio.

- Não é bem isso – eu disse, segurando o baseado entre os dedos. – Só preciso que você me ajude saber mais sobre ela. Na verdade, saber de tudo.

- Entendi – Mago pegou o cigarro de minha mão e colocou nos lábios enquanto digitava. – E deixa eu te perguntar: você ainda tá comendo aquela professora de Matemática? Ela é da hora...

- Às vezes a gente dá uma – respondi. – Mas Bia é uma grande amiga. Nada mais do que isso; nem para um, nem para outro. Aliás, da última vez que trepamos, ela me disse que eu deveria encontrar alguém e sossegar.

Os dedos de Mago correram pelo teclado mais uma vez. Ao final, ele bateu na tecla enter com força e suspirou.

- Pronto, terminei minhas pendências. Agora, posso te dar toda atenção, meu amigo.

- Fico feliz.

- Me conte a história. Quero saber cada detalhe – disse Mago, enquanto era envolvido completamente pela fumaça do cigarro.

Antes que eu iniciasse o assunto, Ritinha apareceu requebrando em meio ao fumacê, digno de um cenário de As Brumas de Avalon. Vestia unicamente uma camiseta preta larga e comprida, com a estampa do Bart Simpson sobre um skate. Ao lado dela, Vishnu, uma pinscher negra e hiperativa, abanava o coto e gania.

Ritinha e Mago mantinham uma vida de casados há quase cinco anos, pelo que me lembrava, e se davam maravilhosamente bem. Ambos curtiam maconha, música pesada, seriados e outras tranqueiras nerds

Ela gerenciava uma escola de idiomas no bairro voltada a adolescentes ávidos por uma temporada no exterior; ele, gastava as horas enfurnado naquele apartamento prestando serviços para empresas dos mais variados portes – serviços, estes, legais ou alternativos, por assim dizer.

Sempre achei que Mago tinha mais grana do que aparentava; ficava pensando quanto uma empresa pagaria a um hacker para sacanear um concorrente e ter acesso a dados sigilosos. Claro, ele nunca tocava no assunto e eu tampouco perguntava; era só mera curiosidade sobre o que rolava, e quanto custava, a putaria nas entranhas do mundo empresarial de verdade.

- Túlio, há quanto tempo não aparece! – disse Ritinha, sentando-se sobre o braço do sofá bem ao lado de Mago. Com um gesto rápido, ela pegou o baseado, tragou e devolveu a Mago. – Não quero atrapalhar vocês. Tenho uma reunião na escola às onze e preciso tomar um banho rápido e sair. Só passei dar um oi.

Ela beijou Mago nos lábios e me deu um beijo na testa. Cheirava perfume doce, coito e erva.

- Apareça mais vezes – ela disse, caminhando para o quarto. – Vem, Vishnu.

A cadelinha a seguiu, sem pestanejar. 

- Apareço, sim. Voltarei para fazer uma visita social. Hoje, são apenas negócios – eu disse, acenando para ela e tentando não olhar para as marcas que as nádegas que balançavam diante de mim.

NOS MEUS SONHOSOnde as histórias ganham vida. Descobre agora