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Vinícius mal reagiu quando me observou caminhando até ele. Apenas olhou de um lado para o outro, talvez para tentar entender quem eu era e por quê me aproximava.

Coitado. Doce ignorância.

A praça era tão silenciosa aos sábados e domingos. Durante a semana tinha sempre um pessoal ouvindo música no celular (sem fone de ouvido) ou lutando capoeira ou pedindo dinheiro para os passantes (sem necessidade, já que estudavam todos em escola particular).

Estendi minha mão para um cumprimento.

— Oi, Vinícius. Sou irmã mais velha da Rafaela.

Os olhos dele praticamente dobraram de tamanho. Ele ergueu as palmas das mãos, num gesto ambíguo de inocência e culpa:

— Olha, desculpa, eu não...

Para mim, foi tão bizarro perceber que ele estava realmente me enxergando como alguém "mais velha", uma adulta, talvez, alguém que veio brigar ou exigir uma prestação de contas.

Do meu nariz escapou um riso involuntário. A situação era uma completa tragicomédia.

Sentei-me ao seu lado no banco e esfreguei compulsivamente meus joelhos com ambas as mãos.

— "Prove que não é um robô". — Dei um sorriso constrangido e ergui um ombro, meio sem jeito. — Há um motivo. Nós desconfiamos porque não somos confiáveis.

Pensando bem, hoje em dia, penso que a tela azul de morte expressa nos olhos vazios e distantes do Vinícius deveria ter sido meu primeiro alerta. Mas eu apenas prossegui o programa, como se nada tivesse acontecido.

— Acho que agora é o momento de confissões... — gaguejei e me senti ridícula pelo tanto que eu tremia. Eu realmente gostava desse rapaz. Ou da ideia de quem ele era. Dos seus pensamentos. — Eu...

— Está bem, eu confesso — Vinícius exclamou, de repente, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa.

Minha boca ainda estava entreaberta com meu discurso preparado pronto para sair.

Parei e o encarei.

— Oi?

— Eu não planejei. Eu nunca quis mentir pra ela. Tudo o que eu queria era...

Não quis... mentir para ela?

Só aí que percebi que os alertas em minha mente gritavam e gritavam em vermelho-sangue.

— Pera lá e volta a fita, Wickham. Do que diabos você tá falando?

— Eu fiquei com vergonha e não queria piorar a situação. Depois de quase atropelá-la, ainda ter uma discussão pelo celular? Como eu ia ficar?

— Péssimo — sugeri com a minha melhor expressão de blefe, na esperança de que ele prosseguisse.

— Pois é. Juro que só queria saber como reagir, mas, cara, ele tinha as melhores respostas do mundo. Foi inevitável.

Ah, socorro.

— Quem é ele?

— Meu tutor. Meus pais pagam professores particulares para mim.

Vinícius estava verde. Parecia que ia vomitar ou desmaiar a qualquer momento.

— Além das aulas de francês?

As vantagens de ser podre de rico.

— Francês, música, esgrima, matemática... No caso, foi meu tutor de literatura. A Rafaela é uma gênia, cara. Não dá para competir.

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