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Nós caminhamos, lado a lado, em silêncio.

No fundo da minha mente, pulsava um senso de que eu tinha direito de estar brava com a Rafaela.

Mas eu não estava.

Eu estava enfurecida.

Agora eu tinha uma ligeira noção de como a Elizabeth se sentiu ao perceber que a Lydia tinha fugido. Era muita estupidez de uma vez só.

— Achei que você ia contar a verdade.

Rafaela levou um susto ao som da minha voz.

— Eu contei — respondeu, erguendo as mãos na defensiva. — Ele só... levou super na boa.

— É mesmo? — repliquei num tom sarcástico. — Conte-me mais a respeito disso.

— Eu contei para ele que... que eu não sabia tudo aquilo de cor.

— E como, por favor, a senhorita explicou suas citações?

— Procurei no Google? — Ela abriu os lábios num sorriso sem graça.

— Ah, faça-me o favor.

Comecei a caminhar mais rápido, ciente de que ela não poderia me acompanhar com aqueles sapatos.

Mas, isso não a impediu de tentar.

— Eu sei, tá? — gritou, enquanto corria com passos curtos ladeira acima. — Eu sei que eu sou uma tonta, mas, por Deus, se você soubesse o que é... o que é estar no vórtice da atenção daqueles olhos castanhos! Por que você está tão brava? — Ela freou de repente e cruzou os braços, me encarando com sobrancelhas franzidas. — Eu sei que o que eu fiz foi errado, mas por que está afetando você tanto assim?

Eu me voltei para ela e suspirei, deixando parte da violência dos meus sentimentos esvairem-se com o gás carbônico.

— Porque... — Hesitei. Eu não queria ter que falar a verdade, mas este era apenas um daqueles momentos onde não há escapatória. — Porque eu não quero que você se machuque.

Ela piscou os olhos repetidas vezes, como se esperasse algo a mais.

— Eu falei para você, Tata. Eu só estou tentando me divertir.

— Vocês, jovens, são inconsequentes.

— Pare de falar como se fosse uma vovó. Você só é um ano mais velha do que ele, menina!

Ignorei esse comentário e prossegui meu discurso:

— Você vive sua vida de uma forma... como se entrasse num campo de batalha sem sequer ter ideia de que há uma guerra explodindo lá fora. E quando você não sabe... quando você não se prepara... você é atingido e ferido gravemente. O mundo está repleto de pessoas mutiladas, aprisionadas em suas lembranças e dores, mas nesse tempo todo, apenas coçam a cabeça e se perguntam o que diabos fizeram de errado. Todos dançam no campo minado porque a música está tocando.

Ela suspirou impaciente.

— Você tirou isso dos seus livros?

— Não, princesa — respondi, imediatamente. — Eu dancei no campo minado também.

— Você é tão dramática, cara.

— A gente tenta se convencer de que essa dor é normal, porque todo mundo passa por ela — continuei. — E a gente oculta ela aqui dentro esperando que simplesmente desapareça. Mas ela nunca se vai. E todos fingem que não sabem que todos nós agora somos apenas metades. Mas não porque, como Platão teorizou, há uma outra parte original de nós escondida no outro. Mas porque nós mesmos a jogamos fora quando entramos bailando de olhos vendados na zona de ataque.

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