ZERO

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Emily Welch nasceu quando o mundo morreu. Aconteceu durante a noite, sob um céu enxurrado de estrelas, e aconteceu assim:



Primeiro, a escuridão avermelhada de sempre. A casa quentinha e aconchegante na qual ela passara os últimos oito meses. Ela gostava de lá: gostava de boiar naquele líquido morno, flutuar como um querubim em sua nuvem, sem nenhuma preocupação enquanto seu corpo crescia a cada dia como a semente que de fato era. Mamãe costumava chamá-la assim. Sementinha. Minha sementinha. Às vezes, ela conseguia escutar Mamãe falar, assim como era capaz de ouvir as batidas do coração dela. Tum-tum, tum-tum, tum-tum. A melhor canção de ninar do mundo. A música para um sono tranquilo e sem sonhos. Outras vezes, quando ela se agitava e esmurrava as paredes de carne rosada do aquário redondo que a envolvia, Mamãe cantava para ela. Por que você está tão birrenta hoje?, dizia Mamãe. E depois: Hey Jude, don't make it bad. Take a sad song and make it better... Havia também o cordão, o tubo conectado em sua barriga, e era por ali que Mamãe a alimentava. Ela sabia disso, da mesma forma que sabia que Mamãe cantava Hey Jude para acalmá-la porque essa era a música favorita da Vovó. Embora ela jamais fosse conhecer a Vovó, que fora levada para o Céu, onde quer que isso ficasse.

E então, algo diferente. A Mudança. Começou com o coração de Mamãe batendo com mais força e velocidade. Tumtumtum-tumtumtum, quase sem pausa, a música antes perfeita e harmoniosa agora descompassada e arrítmica. Ela se agitou e se contorceu no escuro, assustada, principalmente porque sentia que Mamãe também estava com medo. Mas, ao contrário do que acontecia nas outras vezes em que ela ficava agitada, Mamãe não cantou para ela. O que Mamãe fez foi dizer:

- Acho que ela está nascendo.

Aquela palavra – nascer – a assustou mais do que qualquer coisa até então. O que era isso? Nascer? Não podia ser bom, certo? Não quando fazia o coração de Mamãe bater daquele jeito, correndo como uma locomotiva sem freio. Ela não gostava de nascer. As paredes rosadas à sua volta tremeram, a carne encolheu e pareceu prestes a cair em cima dela, e Mamãe gritou. Ela nunca escutara Mamãe emitir um som daqueles, aquela coisa feia e ululante que lembrava um animal ferido uivando para a lua. Será que ela estava fazendo aquilo com Mamãe?

- Ah, meu Deus, eu tive uma contração.

De novo as paredes em torno dela se encolheram, e ela rodopiou pelo líquido em que boiava, mais assustada do que nunca. Alguma coisa estava acontecendo e, fosse o que fosse, não era uma coisa boa. Nada boa.

- A bolsa estourou.

Um homem respondeu, mas ela não foi capaz de entender as palavras. Ela nunca conseguia compreender o que as pessoas que falavam com Mamãe diziam. A voz de Mamãe era quase sempre cristalina aos seus ouvidos, mas as vozes dos Outros eram abafadas e distantes, ecos cavernosos, como se viessem de alguém com a boca apertada contra um travesseiro.

Mamãe gritou. O medo que Mamãe sentia a atingiu com força total, como se transmitido feito uma corrente elétrica por aquele cordão grudado à sua barriga, fazendo-a se encolher e tremer.

Para com isso, Mamãe. Por favor. Você está me assustando.

Mamãe, claro, não a escutou.

Um terremoto fez balançar as bases de seu mundo sempre tão tranquilo. As paredes se encolheram mais e mais, prontas para sufocá-la, e o líquido em que ela boiava desde que as primeiras raízes de consciência haviam crescido em sua mente começou a borbulhar enquanto ela era atirada de lá pra cá, feito uma bolinha de pingue-pongue. Mamãe corria, ou era carregada por alguém que corria. Ei, cuidado, vocês vão destruir minha casinha. E eu só tenho essa. Outras vozes surgiram, falando apressadas com mamãe, uma cacofonia abstrata de sons e sílabas que não formava palavras mas que passava urgência. Em meio à barulheira, ela conseguiu extrair sentido de apenas uma sentença:

A Viajante.Onde as histórias ganham vida. Descobre agora