5

40 2 0


Afastei-me cerca de um metro e meio da tela para apreciá-la melhor. Surpreendentemente, eu estava fazendo um bom trabalho, julguei, ainda mais se levando em conta meu momento pessoal.

Mais uma semana, e estaria concluída.

Virei o restinho de uísque do copo goela abaixo e limpei os lábios com as costas das mãos. Puta que pariu! Daria tudo por uma maconha naquela hora!

Deixei a ideia de lado, recordando dos problemas que as drogas haviam me trazido. Fui para o quarto e joguei-me na cama; depois, rolando o corpo, fixei-me em olhar o teto.

Eu teria que resolver o rombo em minha conta bancária no dia seguinte, sem falta, mas não era aquilo que me preocupava. Estar sem grana e passar penico implorando ajuda havia se tornado algo comum depois que saíra da casa de meus pais. O que tornava a me intrigar era a garota de cabelos cor-de-cobre, que pulara dos meus sonhos para a realidade de modo que eu não conseguia assimilar.

Além disso, matutava sobre o que o tatuado dissera.

Fique longe de meus negócios. Se me foder, mando o Malhado à merda com o dinheiro dele e venho atrás de ti. Daí, seremos só nós dois, numa festinha privada. Você vai adorar.

Somente a ideia de estar sozinho com aquele psicopata me dava náuseas. Sim, eu tinha muito medo do sujeito e estava de fato me cagando todo. Mas o que ele quisera dizer com "estar no caminho dele?". Afinal, o que o cabeça-de-ovo fazia na rua naquele momento? Se ele não estava me vigiando (e dera a entender que não estava), o que ele fazia ali?

Esfreguei a testa. Eram muitas imagens e medos circulando em minha mente, e, honestamente, não percebi o momento em que passei para o sono. Tampouco tinha a certeza de que dormira pensando na garota e seus cabelos cobreados, porém, ele reaparecera nos meus sonhos e modo bastante real.

Estávamos ambos numa rua comprida. Numa extremidade, eu a observava ao longe, enquanto ela, ignorando-me por completo, entretinha-se com o cãozinho endemoninhado que quase me derrubara escada abaixo.

"Ajude-a", uma voz ecoou na minha cabeça. Pude notar claramente que era uma voz masculina, mas totalmente desconhecida.

"Quem é você?" – perguntei.

"Ajude-a", insistira.

Eu estava incerto sobre o que poderia fazer, e, ainda que quisesse correr em direção à garota, minhas pernas não se mexiam. Pareciam pesar toneladas.

Nisso, uma figura escura e alta apareceu entre mim e a garota de cabelos cor-de-cobre. Ele estava de costas, mas isso não me impediu de reconhecê-lo.

"O tatuado".

"Ajude ela, por favor!", a voz masculina insistiu.

Incapaz de me mover, tentei gritar, mas a voz não saiu. Tomado pela agonia, arregalei os olhos quando, passo após passo, o monstro aproximou-se da garota, que se limitava a olhá-lo com indiferença.

Novamente, esforcei-me para gritar e mandá-lo ficar longe dela. Mas foi em vão.

"Ele vai matar ela!", urrou a voz.

Agitando o corpo todo, tentei lançar-me à frente. Foi quando notei algo úmido e pegajoso nas minhas mãos. Sangue. Eu estava com as mãos cobertas de sangue.

Suspendi o corpo, sentando na cama. Estava acordado novamente. Meu coração batia, acelerado. Eu precisava beber algo; e, também, precisava de um remédio para dormir.

Servi-me de uma dose de uísque barato e bebi devagar. Não, algo estava errado.

Ergui o braço direito, fechei e abri a mão.

NOS MEUS SONHOSOnde as histórias ganham vida. Descobre agora