Caolha

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Ele olhou para mim como se soubesse o que faria. A.G. tem mais cara de quem derrete calcinha do que acha que tem. A moça de olho esquisito, um maior que o outro, meio até um pouco caolha, meio loira; quer dizer, loira da metade do cabelo para baixo, a outra metade na cor natural, castanho, cor normal de cabelo, olhava para ele com um sorriso nervoso.

Eu não sei o que ele entendia da moça, talvez todo esse tempo sem transar o tivesse deixado sem critérios. Olhava para ela, olhava para mim, respondia para ela, olhava para mim. Tá olhando para mim por quê? Não era isso o que você queria?

Arrastou a moça pela mão, todo o bar olhando, direto para um banheiro. Os homens do bar se viraram para comentar, falando mal do meu amigo. Todos queriam ter a cara de pau que ele tinha, mas como não tinham, falavam mal.

Só entendi que alguma coisa estava errada quando as amigas da caolha ficaram de risinhos. Olhei para elas até que me pegassem olhando e mesmo comigo olhando, não pararam de comentar.

Mulher quando está em bando é pior que homem.

Voltei minha atenção para o balcão do bar, bem clichê mesmo, o barman secava uns copos altos, tinha visto a cena toda, sorria meio sem graça, meio querendo puxar assunto.

— Tá tudo bem entre você e seu namorado?

— Ele não é meu namorado.

— Oh.

Oh, ele disse. Eu nunca nem tive um namorado. A.G. reclama de barriga cheia, nasci encalhada. Enquanto ele tá se esfregando na caolha, eu tô segurando vela. Guardando o copo dele. Contando os amendoins que ninguém devia comer, mas que ele come.

— Quer dizer, não é um mau negócio ser solteira, sabe? A gente tem liberdade pra caramba.

— É, - a quem eu estou querendo enganar? O Barman secava seu copo e me olhava desconfiado – sem ninguém a quem dar satisfação.

— Sem chororô desnecessário, sem briga idiota, sem DR por curtir foto alheia.

— Sem ninguém para dormir de conchinha.

— Tem isso, mas você já dormiu esparramado sozinho numa King Size?

— King size eu só deitei nas de loja.

— Pois é, eu nem isso. Mas deve ser legal dormir esparramado.

— Se você quer um conselho...

— É claro que eu quero, Barman serve mais para dar conselho do que para encher o copo.

— Fico lisonjeado. Mas se você quer um conselho, você e seu amigo deviam namorar.

— QUÊ?

Não era esse o cara transcendental que fica atrás do balcão curando apaixonados de coração quebrado e falidos sem emprego? Por que ele tá me dando um conselho cagado que nem esse?

A.G e eu somos amigos desde... ish. Faz tempo. Desde quando? Terceiro ano da escola. Ninguém queria conversa com a gente, todo mundo neurótico com vestibular, eu comprando guache e tinta óleo e ele tirando o maior sarro dos namorados capachos da nossa sala.

A gente não decidiu ficar amigo, sabe? É que a gente sobrou. Fomos até companheiros de formatura, entrei no baile de braço dado com ele, a minha mãe até hoje pergunta como é que o Dézinho vai e o que tem feito de bom. (É assim que ela chama o Agê, só para você saber).

Isso não quer dizer que a gente não tenha ficado muito amigo com o passar do tempo, pelo contrário, cada vez que a gente se via ria mais que a vez anterior, falava mais besteira, o mundo virava um palco onde a gente sentava na primeira fila só para a gente jogar tomate.

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