II - Cedo demais para morrer

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Thiago sempre amou Marcela. Sempre. Desde o dia em que pôs os olhos sobre ela, no segundo ano do ensino médio. Agora, pouca coisa daquela garota impertinente, que julgava saber mais que os professores, ele reconhece na figura parada a sua frente.

É o silêncio, tão incomum a ela, que o incomoda. A Marcela que Thiago conhece jamais deixaria alguém falar por ela. Bom, parece que esses tempos chegaram ao fim. Agora, das três pessoas sentadas naquele escritório acinzentado, apenas uma ainda não abriu a boca para falar. As outras duas são Thiago e o advogado que Marcela contratou para cuidar do divórcio.

Divórcio.

A palavra soa amarga até em pensamento. Quem diria que aqueles jovens apaixonados que se casaram no campo, em uma festa linda, para cinquenta pessoas, estariam selando o fim de tudo, naquele instante?

E não posso dizer que isso acontecia de maneira pacífica.

A verdade é que Thiago desistiu de brigar e tentar argumentar. Desistiu de tentar salvar o relacionamento com uma pessoa que não faz questão.

O rapaz sente a cabeça apertar, enquanto olha a boca do advogado mexer, ainda que não ouça nada do que o homem diz. Para ele, não interessa. Contratos nunca interessaram. E é exatamente isso o que está acontecendo ali: um impasse jurídico. Pouco importa para aquele sujeito se o sonho de Thiago em viver uma vida feliz ao lado da mulher que ama, possivelmente com filhos e cachorros, está indo por água abaixo.

Talvez Thiago devesse dizer a ele que não se incomoda em não ter para onde ir. Marcela pode ficar com a casa — que é dela — e com todo o resto — que também é dela. Eu estou louco, o rapaz pensa. No entanto, não. Não está louco. O que mais dói em Thiago não é sair de casa com uma mão na frente e outra atrás, mas sim o fato de sair de casa.

A maioria das pessoas pensa que homens não gostam de casamento. Não poderia existir engano maior no mundo. O que acontece é que sujeitos como Thiago não podem admitir em voz alta que a única coisa que querem é viver em paz, amar alguém, ter tranquilidade e conforto. Dividir sonhos, conquistas, frustrações, desejos e metas com uma pessoa.

A mãe dele sempre diz que romance é coisa de mulher. Os amigos dizem a mesma coisa. Todos tão presos aos ideais dos filmes americanos. Se Thiago pensasse assim, doeria menos. Ele encararia esse processo com a frieza masculina e calculista.

— Thiago? — Marcela o chama. Finalmente, resolveu falar alguma coisa. O rapaz nota a irritação no rosto da ex. Ela odeia quando Thiago não presta atenção às coisas que diz. — Você tem que assinar!

— Nós ainda não decidimos...

— Você nem estava ouvindo o advogado, Thiago! — uma verdade que o jovem não pode rebater, então ele fica calado. — Você fazia questão da minha presença. Estou aqui, agora ass...

— Que presença? Você só abriu a boca agora, Marcela! Dois meses nessa palhaçada!

— Você sabe muito bem por que não resolvemos isso antes — ela acusa, sabiamente, conhecendo exatamente o que o machuca. Relacionamentos longos são perigosos, as pessoas passam a se conhecer, a se julgar, a se ferir. Thiago olha nos olhos da mulher que amou por dez anos e não reconhece mais nada. — Entendo todos os problemas que está enfrentando com sua família. — Ela recua, por bom senso. Somente por isso.

Meu Deus, o que nos tornamos? Thiago parece perceber que não há um vestígio sequer de amor nos olhos dela. Somente raiva, impaciência e decepção.

— Marcela... — o rapaz murmura, mas de repente percebe que não tem forças para continuar batalhando. Essa guerra foi perdida há muito tempo. Então, ele pega os papéis sobre a mesa e começa a assiná-los, em silêncio.

— Vou mandar o resto das suas coisas para o apartamento do Leo — a mulher diz, assim que Thiago termina de assinar os papéis.

— Não dá. Ele vendeu. O novo dono deve tomar posse em breve.

— Nossa, belo amigo! — Marcela não gosta dos amigos do ex, mas sempre teve muito carinho por Leandro. Contudo, ultimamente, tudo relacionado a Thiago a irrita.

— Ele precisava do dinheiro. Sabe? Para pagar as despesas com o casamento. — diz Thiago, se referindo ao fato de que seu irmão e o melhor amigo se casaram.

— Então, vou mandar para a casa do Luan.

— Não. Não vou ficar lá. Não quero incomodar meu irmão que se casou há uma semana — ele diz, com bastante ênfase para ver se ela se toca. Porém, Marcela é egoísta demais para enxergar qualquer coisa que não seja ela mesma.

— Então, para onde mando suas coisas?

O resto delas, ela quer dizer. Thiago saiu de casa. Ou melhor, da casa da Marcela, há três meses. Foi morar de favor no apartamento vazio do melhor amigo, depois que Leandro se mudou para a casa do noivo. Já há algum tempo, o relacionamento com Marcela tinha ido para o saco, mas ninguém queria dar o braço a torcer. Com o casamento de Luan e Leo, os problemas de Thiago com os pais ficaram ainda mais evidentes. Então, o casal hétero decidiu adiar o divórcio e concluir só depois de toda a confusão familiar terminar. E agora, estão ali.

— Manda para o hotel onde estou hospedado desde ontem — Thiago diz, com amargura, e anota um endereço e o número de seu quarto, entregando à Marcela. É quando ela lança a ele aquele olhar maldito de pena.

O rapaz sempre odiou a expressão que o rosto de Marcela faz ao se dar conta do tremendo fracassado que ele é. Para os padrões dela, claro. Para os de Thiago, até que estava indo bem. Agora está mal: sem casa, sem esposa e, muito provavelmente, sem trabalho, já que, para piorar ainda mais a situação, ele é funcionário da empresa da família de Marcela. Lembrar-se disso o faz se sentir ainda pior naquele escritório, naquela empresa, naquele prédio. Tudo ali pertence a ela.

É, talvez eu seja um pouco fracassado. O pensamento, unido ao olhar que Marcela lança, são suficientes para tirarem o rapaz do sério. Ele cumprimenta o advogado rapidamente, murmura um "já que é só isso, com licença" e sai do escritório.

Passa em sua sala apenas para pegar o capacete. Não tem como evitar toda a frustração e a raiva que tomam conta de si, mas corre daquele prédio antes que os sentimentos negativos se espalhem. Thiago desce até a garagem, pelo elevador, e se olha na parede espelhada. Está péssimo, chorando feito uma criança. Ele nem vê quando chega até a moto, não se vê saindo do prédio. Não repara a chuva fina que cai lá fora, muito menos presta atenção no trânsito. Quando percebe, já é tarde demais. Algum maluco avançou o sinal e foi com seu carro sedan para cima de Thiago.

Mesmo estando lascado por ter feito todas as escolhas erradas na vida, ele sente, por um breve segundo, que é cedo demais para morrer.

Então, o carro o atinge.

Sempre estive aquiOnde as histórias ganham vida. Descobre agora