I - Muito cedo para matar

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O amor também é como o vento. Às vezes, é brisa; em outras, vendaval. Mas está sempre aqui. Sempre passando por nós. Nunca permanecendo.

Talvez tenha sido este o grande problema de Karin: ver o amor como algo natural, ainda que nunca tenha sido natural para ela.

Karin aumenta o volume do rádio: um som bluetooth de última geração. As canções do Ed Sheeran, selecionadas em uma playlist melosa no Spotify, ainda são um fio de esperança para ela, como a ponta fina de uma navalha que vai cortando fundo. A esperança, às vezes, machuca mais que a solidão. E de solidão Karin entendia bem.

Será que alguém, um dia, pensará em mim dessa maneira? Ela se questiona ao ouvir as palavras apaixonadas do cantor.  Karin ouve tantas canções e lê tantos romances, na pura esperança de encontrar neles o amor que não encontra em sua vida.

Parece tolo viver para isso. Pensar nisso. Desejar tão profundamente um amor e mais nada. Talvez, uma vida tranquila, em uma casa de frente para o mar. Duas crianças brincando na areia, com o pôr do sol ao fundo e um grande amor segurando sua mão...

Muitos sonham com fortunas e sucesso, Karin sonhava com uma família. Sempre sonhou. Uma que ela construísse. Uma que ela escolhesse.

Ela dirige, olhando para a avenida e notando as gotículas finas de chuva caírem e escorregarem pelo vidro. Karin permite que sua mente viaje até a vida que gostaria de ter. Ultimamente, tem acontecido bastante. Ela vive pensando em outras coisas enquanto trabalha, até mesmo durante reuniões e conversas. Anda desatenta e desanimada. Não consegue evitar esse sentimento de vazio. De silêncio.

A playlist de músicas românticas acaba e ela nem nota. Não repara, também, o sinal a sua frente mudando para o vermelho. Nota, tampouco, o motociclista indo veloz em sua direção. Quando dá por si, já é tarde demais. Um barulho alto de várias coisas se rompendo, quebrando e amassando toma conta do ar. O baque da inércia a joga para frente e depois a puxa para trás. A batida lança Karin direto para a realidade, quando ela percebe, em choque, que atingiu alguém, com bastante força.

Sempre estive aquiOnde as histórias ganham vida. Descobre agora