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Se querem mesmo ouvir o que aconteceu, a primeira coisa que vão precisar saber é de que maneira especial minha família é infeliz. E todo esse lenga-lenga de dramalhão adolescente.

Em resumo: minha mãe gosta de sapatos. Meu pai de andar descalço.

Desde que nasci ele sempre teve essa Parati azul-desbotado caindo aos pedaços, o que, confesso, nunca realmente valorizamos até o dia em que a greve fez subir tanto o preço do combustível que tivemos que começar a andar a pé. Pra mim não era o fim do mundo. Eu já tinha mania mesmo de andar ligeira de um canto a outro, semi-invisível, com o tênis furado e um livro cobrindo a cara.

Mas minha mãe e minha irmã gostavam de sapatos.

Só que aparentemente não gostavam dos próprios pés.

Porque aqueles instrumentos de tortura que elevavam seus calcanhares uns dez centímetros do chão definitivamente não foram feitos para transporte. E a culpa dos machucados era de quem? Do pobre do meu pai que deixava o dinheiro da gasolina se esvair em calçados de luxo para as fofas.

Eu tinha dó do meu pai.

Ele já tinha feito de tudo na vida, mas ainda parecia perdidinho. Eu era bebê, quando cismou de virar pastor. Aí no dia em que teve que largar (por ordem superior?), foi ser bombeiro. Imagino que a lógica era: se não era capaz de salvar alguém do fogo eterno, que ao menos resgatasse de labaredas terrenas. Uma missão nobre, penso eu. Em algum momento mais tarde, foi parar na carreira de vendedor ambulante na praia. O que, surpreendentemente, acabou por ser até mais lucrativo que as outras duas profissões anteriores.

O que posso dizer? Meu pai não fora um pastor muito bom. Ele tinha uma consciência.

Vocês vão dar risada se eu falar que nem notei quando ele saiu de casa?

Sempre ouvi relatos tão dramáticos a respeito desse tipo de coisa:

— Ah, ele saiu pra comprar cigarros e nunca mais voltou.

— Saí correndo atrás do carro em prantos, mas ele sequer olhou para trás.

Mas eu nem consigo lembrar de quando foi. Então, não pode ter sido assim tão traumático. Ele simplesmente viveu conosco um tempo e, depois, não mais. A mudança significativa foi que não ouvíamos mais seu ressonar turbulento à noite. Mas a Parati continuou, como sempre, aparecendo no horário certo para nos levar para a escola e no horário certo para nos trazer de volta.

Isto é... Até a greve, indiretamente, fazer o preço da gasolina explodir.

Aí a Parati parou de surgir e pela primeira vez sentimos um quê de abandono.

Pelo menos é o que se evidenciou pelos resmungos constantes da Rafaela todo o caminho até a escola:

— Argh! Por que não pegamos um Uber como um ser humano normal?

O calor fez com que sua maquiagem borrasse, enegrecendo a parte inferior dos seus olhos, dando a ela um aspecto dramaticamente cansado. Ela dava passadas largas ladeira abaixo com os joelhos semi-curvados, uma bolsinha dourada coberta de glitter balançando a tiracolo, embora a mochila gigantesca em suas costas oferecesse espaço suficiente para tudo que poderia carregar no acessório de festa.

— Porque a sua mesada desse mês, assim como a dos próximos dez meses, está comprometida com as suas compras no cartão? — sugeri.

— Não dá para comprar sem dividir — ela protestou. — Você já viu o preço do Toddynho?

Eu queria responder, mas nesse exato momento Coronel Brandon começou a fazer para Elinor revelações tão chocantes, embora não surpreendentes, a respeito de Willoughby, que a força do meu sentimento deve ter sido equivalente ao que Elinor sentiu também.

— Você sequer está me escutando? — Rafaela parou de andar e bateu um pé.

— Desculpa, Rafa, mas isso é extremamente importante — eu disse, quase amassando uma página na minha avidez para saber o resto.

— Isso é só uma história, Tata! — Ela deixou os braços despencarem aos seus lados e contraiu todo o rosto avermelhado pra expressar sua revolta. — Tem gente com problemas reais aqui!

Ergui o olhar do livro, apenas por um instante, com o objetivo de revirar os olhos e explicar para minha irmã que nada, nada nesse mundo pode ser mais importante que Jane Austen, quando um vulto passou zunindo ao nosso lado, um borrão numa velocidade incrível, fazendo com que Rafaela se desequilibrasse do salto e caísse de bunda no chão.

— Au — ela gemeu, enquanto tentava o mais rápido possível posicionar as pernas de uma forma em que a calcinha não ficasse exposta sob a saia curta.

— Palhaço! — gritei para o rapaz no skate que a essa altura já parara bruscamente ao final da ladeira, à entrada da escola, e cumprimentava outros garotos da idade dele com uma mão, comprimindo o skate contra o corpo com a outra, sem nem se dar conta do que fizera. — Eu vou espancar esse moleque — murmurei entredentes para a figura caída no asfalto, erguendo meu livro ao alto como se fosse lançá-lo na direção do agressor. — Volta aqui! — continuei a gritar, embora soubesse que ele já não era capaz de me ouvir. Ninguém machuca minha irmãzinha e sai ileso!

Eu me voltei para ajudá-la a se levantar, mas ela já estava de joelhos no chão, espalmando os quadris para tirar as manchas de pó e sujeira da saia e pronta para se erguer sozinha. Quando ela se levantou, sem ajuda, mesmo com a mochila pesada, e se equilibrou sobre os sapatos com uma graciosidade feminina nata, tive um breve momento de lucidez em que percebi o quanto Rafaela crescera em tão pouco tempo. Eu não sabia de que formas eu estivera ausente, mas em algum momento ela passara daquela criancinha que adorava brincar com as roupas da minha mãe, para possuir uma identidade única. Ela se tornara uma garota opinada e forte, uma jovem atraente e com uma trajetória própria. E ela ainda não vivera o suficiente para entender como as coisas funcionam, mas já tinha independência o suficiente para experimentá-las.

Senti um misto de admiração e agonia ante essa constatação. Não importava o quanto eu tentasse, eu jamais conseguiria proteger Rafaela de todas as ameaças do mundo.

Mas, eu iria tentar. Disso eu tinha certeza.


* * *


Continua...

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