Capítulo VII

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Âmbar

          Naquele dia, há três meses, Amber decidira comer seu lanche sozinho no terraço. Era a primeira vez que ele ia lá. Não que fosse proibido ou algo assim. Como o local era todo protegido por grades para ninguém acabar caindo, a direção da escola permitia seu acesso. Não. Ele nunca tinha ido lá por causa de Donnie, que sempre reclamava que o vento do terraço o deixava com dor de ouvido. Naquele dia específico, entretanto, Donnie havia ficado em casa por causa de uma dor de barriga, de modo que Amber, apenas a caráter exploratório, decidira visitar o tal terraço.

          Assim que ele atravessou a porta, foi como se entrasse em outra dimensão. Deliciosos raios de sol vieram imediatamente para saudá-lo, cobrindo seu corpo com um manto dourado que o acariciava. Diferente das gélidas entranhas do monstro de concreto às suas costas, o terraço estava caloroso e brilhante, recoberto pelo lençol azul do céu matinal.

          A fim de encontrar uma sombra, com seu lanche em mãos, ele seguiu até o outro lado da pequena estrutura da qual emergia a escada. Nessa área sombreada, ele encontrou uma pequena escada metálica que subia para o lugar mais alto do terraço, logo acima da estrutura.

          Bem, um solzinho não vai me fazer mal...

          E não resistindo à tentação, Amber subiu até lá e se esparramou no concreto quente, fechando os olhos para o sol sobre sua cabeça.

          As incontáveis camadas de concreto entre ele e os alunos lá embaixo não permitiam que sequer um ruído se infiltrasse naquela pacífica paisagem.

          Eu poderia ficar aqui para sempre, ele pensou, espreguiçando-se.

          Estava prestes a cochilar quando escutou o som metálico da porta sendo aberta.

          — Ei, ei, vamos aqui pra trás, na sombra. Ou esse sol vai acabar com a minha pele.

          — Está bem, não precisa me puxar!

          Amber ouviu os passos das duas garotas ecoando, até pararem debaixo da área sombreada. Suas vozes lhe eram vagamente familiares.

          — Nossa, aqui tá bem melhor — disse uma delas, ao parar na sombra.

          — Com certeza.

          — O que cê trouxe hoje, Jill? Ah, empanados!

          — Ei, não saia metendo a mão na minha comida!

          Risadas.

          Ah, por algum motivo, Amber sentiu a paz daquele lugar se esvaindo aos poucos. Desanimado, decidiu fazer o que tinha ido fazer ali. Pegou o sanduíche ao seu lado e, sem pressa, começou a comê-lo pelas laterais. Enquanto comia, escutava distraidamente a conversa das garotas.

          Em algum ponto, porém, o assunto se distanciou de assuntos triviais como maquiagens, artistas populares e programas de televisão, e acabou chamando sua atenção.

          — Ei, você já... amou alguém? — perguntou uma delas, num tom divertido.

          — Que pergunta indelicada — respondeu a outra, ríspida.

          — Vamos lá, vamos lá! Por favor, me conte, Jill! Revele as palavras escritas em baixo-relevo no seu coração! Ahhh!

          Uma risada.

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