14. Maleta marrom

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Para consegui-la ele precisou desistir de sua decisão, precisou remendar os fios recém-cortados. Era um caminho do qual, naquele momento, não sabia que deveria ter se desviado.

Do lado de fora a iluminação não era como na cidade. Em nenhuma janela era possível enxergar algo além da escuridão. Enquanto alguns podiam se sentir claustrofóbicos presos no meio do escuro, outros encontravam a paz nessa falta de visibilidade, como o homem que estava sentado em uma cadeira na cozinha, confortado pelo isolamento propiciado pelo breu da janela acima da pia, embora ele não desfrutasse dessa paz por completo.

Normalmente ele estaria de braços cruzados e expressão séria enquanto pensava, todavia, encontrando dificuldade em se concentrar, antes que pudesse perceber, acessou por acaso um jogo no celular — jogo este que agora o mantinha prisioneiro.

Mais cedo, quando ligou o aparelho, deparou-se com pelo menos quarenta ligações perdidas e, pela primeira vez fora da faculdade, suas mensagens recebidas contabilizavam três dígitos. Tanto as mensagens quanto as ligações eram intercaladas entre os números de Crow e Sara. Ele não tinha a menor vontade de atender e descobrir o motivo de tamanho desespero. Mesmo que fossem notícias emergenciais sobre Elliot, ainda assim estava em seus planos uma fuga rápida que despistaria qualquer problema inesperado... É, esse era o plano principal.

Pensando no harmínion, aí estava o dilema espreitando-o e impedindo que dormisse. A sorte dele, naquela madrugada, foi a aparição deveras coincidente de Maurício na cozinha. Low fechou o jogo, frustrado, ao perceber o amigo ali.

— Achei que não tivesse mais problemas para dormir — disse Maurício.

Low bufou, esfregando os olhos para afastar o sono.

— Não sei o que fazer. — Passou a mão pela cabeça, transformando em caos o cabelo já desarrumado. — Eu sei o que fazer — informou com ímpeto, contrariando-se. — A melhor opção, mas... — Finalizou expirando forte e olhando para o chão.

— Mas... — Maurício incitou-o a continuar.

— A melhor opção para mim não parece ser a melhor para o Elliot. Qual é a melhor? É a mais segura? No meu caso, fugir, conseguir viver em paz, mas perdendo a chance de realizar meus objetivos... Valerá a pena?

— Você sempre pode mudar seus objetivos — Maurício argumentou, esperançoso que Low acatasse sua ideia.

— Não. — Low ergueu os olhos com ferocidade, suavizando o olhar aos poucos. — E quanto ao Elliot? Se ele não se readaptar à floresta, o que eu faço? Não posso levá-lo comigo. Se conseguirem me encontrar... e também o encontrarem... — Suspirou. — A melhor opção para ele é a floresta, qualquer outra alternativa é arriscada.

Seguiu-se o silêncio, durante o qual Low pendeu lentamente a cabeça de um lado para o outro.

— Aqui é o último ponto seguro — prosseguiu com a voz desanimada. — Assim que sairmos não poderei garantir a segurança dele. Então fico pensando... Para alcançar a melhor resolução possível, sair daqui o quanto antes é imprescindível, por outro lado, no caso da pior resolução, eu estaria privando Elliot de um último... — Bufou, abismado. — Essa pressa beneficia somente a mim, não ele.

Maurício assentiu e puxou uma cadeira com cuidado para não fazer barulho. Sentou-se na ponta da mesa, ao lado do ex-aluno, e deixou seus pensamentos formarem uma expressão em seu rosto. Sorriu de leve. A razão da inquietação de Low era o bem-estar do harmínion. Isso era algo bom. Em todo o tempo em que o conhecera, sabia o quanto ele evitava se aproximar de outros. Mesmo aqueles considerados amigos de faculdade foram descartados, tal como objetos que perderam a utilidade. Saber o quanto Low se importava com Elliot era um progresso surpreendente para alguém que enxergava amigos também como inimigos.

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