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O tatuado caminhou dois passos em minha direção. Estava tão perto que pude sentir novamente seu hálito de mentol, agora, misturado com nicotina de cigarro barato.

- Sério, juro! Faz o que?... Um dia que nos conhecemos?!... - a ponta do cigarro queimou numa brasa vermelha, enquanto o cabeça-de-ovo tragava com força. Em seguida, a brasa morreu, apagando-se. Notei a fumaça saindo pelas narinas do tatuado e lembrei daqueles desenhos animados em que o touro raivoso bufa antes que chifrar alguém nos fundilhos.

- O que quer? - perguntei, tentando disfarçar a voz trêmula. A última coisa que eu queria naquela hora é que o filho da puta percebesse que eu estava me borrando de medo. - O Malhado disse que tenho até o final do mês pra pagar o que devo, o que me dá nove dias ainda.

- Eu sei - o tatuado lançou o cigarro ao chão e esmagou a bituca com a bota pesada. - Na verdade, também tô surpreso de te ver perambulando pela rua, pintorzinho. Não esperava te encontrar. Mas, já que te vi...

Ele inclinou o corpanzil, fazendo com que eu me afastasse ainda mais. Minhas costas tocaram o poste, e tive a nítida impressão de que aquele psicopata envelopado em couro iria arrancar minha orelha esquerda com os dentes.

- ... vou te dar um aviso de amigo. De brother mesmo! - continuou, abrindo um sorriso. - Fique longe de meus negócios. Jurei pro Malhado que não iria encostar em você enquanto não chegar o final de mês. Afinal, é ele quem me paga. Além disso, é um homem de negócios... business, saca? Também quer receber de seus clientes devedores. Agora, se você cruzar o meu caminho, daí não terei outra opção.

Juro que eu não estava compreendendo o que ele idiota insano estava dizendo, tampouco notei quando ele tirou o canivete do bolso interno da jaqueta. Só percebi a arma em sua mão quando vi o brilho discreto da lâmina.

- Se me foder, mando o Malhado à merda com o dinheiro dele e venho atrás de ti. Daí, seremos só nós dois, numa festinha privada. Você vai adorar.

Foder? Cruzar o caminho dele? Do que diabos ele estava falando?

O tatuado recolheu a lâmina e guardou o estilete com discrição. Espichou o corpo e me deu dois tapinhas no ombro.

- Espero que o braço tenha melhorado, pintorzinho. Se cuida.

Senti uma leve brisa quando o tatuado passou por mim, virando a esquina na Avenida Barros.

Olhei para baixo e notei que minhas pernas tremiam. Envergonhado, observei uma senhora negra de semblante amistoso, que carregava uma sacola de feira enorme sobre o ombro me encarando, com curiosidade.

- Você tá bem, moço? Tá pálido - perguntou a senhora.

- Tô bem, sim - assenti. - Acho que a pressão caiu.

- Também, com esse calor - ela ajeitou a alça sobre o ombro e atravessou a rua sem dizer mais nada.

Concordei, girando sobre os calcanhares e caminhei de volta para o apartamento o mais rápido que consegui. Empurrei o portão, que continuava destrancado (sim, merda, eu precisava arrumar aquilo), e subi as escadas vencendo dois degraus por vez. Apanhei as sacolas com compras, e, já dentro do apê, as deixei sobre o balcão.

Procurei minhas ferramentas nas caixas de papelão empilhadas no quarto. Estar de favor no apartamento de André era uma situação provisória - pelo menos, deveria ser - e, por isso, não vira necessidade de desencaixotar tudo o que havia trazido da casa de meus pais.

Após encontrar meu kit de chaves-de-fenda e alicate, voltei a sair.

Arrumar aquela tranca era o melhor a fazer, ainda que eu tivesse a certeza de que, assim como ocorrera da primeira vez, se aquele brutamonte tatuado quisesse me pegar, ele o faria com ou sem trava.

NOS MEUS SONHOSOnde as histórias ganham vida. Descobre agora