— Onde você está?

          — Estou em uma floresta... é tudo muito lindo! — Artemísia diz, sorrindo.

          — Você está sozinha?

          — Sim.

          Malik segura na mão de Artemísia e fecha os olhos. Sua consciência consegue seguir a consciência de sua discípula. Ele agora pode ver tudo que ela vê, mas ela não sabe que ele está por perto. Artemísia só ouve a voz do jovem mestre, que vai ficando cada vez mais distante, à medida que ela vai despertando em uma nova realidade.

          — Quando quiser regressar, diga o meu nome e eu te resgatarei! — Malik diz, Artemísia se torna consciente na floresta.

          Um barulho assustador chama a atenção de Artemísia, parece um animal feroz. A filha do Clã sobe em uma árvore para tentar ver de onde viria o barulho. Ela está nua, com pinturas espalhadas pelo corpo e usando adornos diversos. Em sua mão carrega um arco.

          Ao longe, Artemísia vê um garoto correndo. Parece assustado. A fera ruge novamente. Artemísia se movimenta através das árvores e segue até o garoto.

          — Cooooooorre, Kugooooo! O rio deve tá perto, agora... — O garoto diz ao seu amigo macaquinho, do outro lado do rio fica a aldeia dele. Os dois aceleram a corrida, mas, no lugar do rio, eles encontram um grande paredão de pedra. Os dois entram em pânico. O macaco desmaia.

          A fera que os persegue é uma onça, uma enorme onça pintada. Quando percebe que suas vítimas estão acuadas, ela caminha lentamente. O garoto tenta escalar o paredão, mas escorrega. Ao ver a onça, seu coração dispara. Então ele respira fundo e decide encarar o inimigo.

          — Se vou morrer, morrerei lutando.

          Quando o garoto começa a se mover em direção à onça, uma chuva de mangas verdes cai sobre o animal. O garoto para, então vê flechas acertando as mangueiras que rodeiam a fera. A onça foge, enquanto mangas continuam caindo sobre ela. O macaquinho desperta, o garoto olha para ele, Artemísia dá um salto e desce perto deles.

          — Venham... o rio que você citou fica aqui perto, mas se não corrermos logo, a onça pode voltar!

          — Icamiaba! — O garoto diz, de boca aberta.

          — O quê?

          — Vo...vo...vo...cê, você é uma Icamiaba! Pensei que vocês não existissem... — O garoto diz, como se estivesse diante de um ser mágico. Artemísia sorri.

          — Venham logo, não quero me tornar comida de onça. — A filha do Clã diz e segue à frente. O garoto e o macaquinho vão junto.

          Após andar um pouco, Artemísia para.

          — Ei! Me desculpe... qual é mesmo o seu nome?

          — Eu sou Bóia, e esse é Kugo! — Bóia diz, enquanto Kugo sobe em seu ombro.

          — Prazer! Eu sou... — Artemísia vacila um pouco antes de dizer seu nome. — Eu sou uma guerreira Icamiaba! — A menina diz, com orgulho.

          Antes de continuar seguindo seu caminho pelo rio, a voz de Malik faz Artemísia regressar à Europa. Ela acorda suada e ofegante. O jovem mestre ainda segura sua mão.

          — Calma! Respire devagar... — Artemísia tenta controlar sua respiração. — Isso! Se acalme... — Malik diz e observa os olhos de Artemísia. — Você sabe quem eu sou?

          — Malik!

          — Sim. Está se sentindo melhor?

          — Sim... Pode começar quando quiser.

          Malik se preocupa.

          — Já terminamos, Artemísia... Você não se lembra de nada?

          — Não brinque comigo, Malik... acabamos de nos sentar aqui! — Artemísia diz, confusa.

          — Hum... Olhe para o céu!

          Artemísia olha para o céu, através da cúpula cristalina da cidade, e percebe que Io não está mais lá. Ela fica pensativa.

          — O que aconteceu?

          — Você ficou em transe por várias horas... deixei você no passado o quanto foi possível, mas se continuasse, correria o risco de sua consciência se perder pra sempre, por isso a despertei.

          — Mas não me lembro de nada... eu falhei, certo?

          — Não... você não falhou. Estive do seu lado e pude ver do que se trata seu destino. Mesmo não se lembrando, sua essência despertou nessa regressão. O que precisamos, agora, é fortalecê-la...

          — E qual é a minha essência?

          Malik sorri e se levanta.

          — Vamos... precisamos nos alimentar.

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