417 dias

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Sabe como mulheres grávidas tem um jeito horrível de contar a gestação?

Doze semanas, trinta e cinco semanas...

Você ainda tenta dividir por quatro pra não precisar fazer a pergunta que inexoravelmente perturba todos aqueles de Humanas e um punhado dos de Exatas que, apesar do nome, não são qualquer exemplo de exatidão: "E isso dá quantos meses?"

Confesso que a malfadada numeração era um negócio incômodo que sempre me irritava.

Até eu entender que, talvez, mulheres grávidas não façam essa contagem apenas pra tirar o seu sossego ou acompanhar a evolução do feto.

Não...

Talvez, elas façam essa contagem porque estão criando uma porra de uma vida dentro da barriga. Uma que, por mais que elas amem e aguardem, ainda assim vai irritar sua coluna, atrapalhar sua bexiga, tirar seu sono, foder seus hormônios e inchar seus pés.

Incômodo desse nível, colega, não dá pra medir de qualquer jeito.

"Seis meses" não é forte o suficiente.

São vinte e quatro semanas.

Uma semana já é tempo pra caralho.

E você sabe disso. Você, que não consegue olhar a segunda feira no olho sem começar a calcular quanto tempo falta pra sexta. Até porque, todo bom assalariado sabe que a duração de uma semana dificilmente é medida no tempo absoluto de sete dias, e sim em um tempo relativo que vai depender da carga do seu trabalho e do humor do seu chefe.

Não são seis meses.

São vinte e quatro semanas, lentas e demoníacas.

Ela quer que você entenda.

Ela quer que você respeite.

E eu respeito.

Por quê?

Bem... porque eu estou a 417 dias sem sexo.

No começo, eu não contava. Só uns meses bestas de abstinência. Normal. Tudo certo. Vamos pro cinema, beber com uns amigos, vida que segue.

Aí chegou nos seis meses e eu contei rapidinho, nos dedos mesmo, pra ter certeza que era isso. Tava sentindo um pouquinho de falta. Mas minha mão é minha amiga faz quase trinta anos. Estreou um filme novo, uma cerveja, a vida.

Quando faltava uma semana pra completar um ano, me bateu uma ansiedade. Um ano. Doze meses. Mas eu ainda tinha uma semana antes de bater o ponto fatídico. Dava tempo. Até eu perceber que contei errado... A Laura não foi embora logo depois do meu aniversário. Foi logo antes. Ela era fã de astrologia e preferiu me deixar na merda antes de eu completar ano porque ainda era meu Inferno astral.

E aí foi isso.

Um ano sem sexo.

Passou que eu nem vi.

Minha abstinência completou aniversário junto comigo. Tinha um ano de idade e logo estaria dizendo as primeiras palavras. Provavelmente seriam "você é um merda", ditas com uma eloquência bem particular e os "r" bem enunciados pra eu ficar orgulhoso do meu bebê.

Um ano não era suficiente.

Eram doze meses sem sexo, mano.

Doze meses.

As semanas eu computei rapidinho. Decorei na aflição.

Minha cabeça recitava "52" pra mim, todo dia, antes de eu ir dormir, até bater a segunda-feira seguinte e o 52 virar 53. Eu não consigo parar de pensar em sexo. Mesmo durante o filme ou a cerveja. A vida é foda.

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