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Havia terminado com a garrafa de uísque quando finalmente peguei no sono naquela noite. O álcool cortara o efeito do analgésico, e a dor ficara insuportável. Então, a solução foi beber mais e mais, a ponto de, mal conseguindo ficar em pé, desabar sobre o sofá e apagar.

Nas primeiras horas, mergulhei em total black out. A dor sumira e meu sono fora tranquilo. Porém, o rosto da mulher de cabelos cor-de-cobre retornou à minha mente.

No sonho, esfreguei os olhos e tentei sair daquele ambiente, que parecia um quarto escuro, com paredes negras. Notei que a mulher estava sentada no meio do recinto, totalmente nua. Contudo, não conseguia enxergar seus seios ou púbis, como se aquele corpo fosse o de um manequim.

Quem é você? – perguntei, finalmente conseguindo ouvir minha própria voz.

Ela não suspendeu o olhar, mas me estendeu os braços. Em volta dos punhos sobrepostos havia uma corda grossa e sua pele estava bastante esfolada.

Quem te prendeu? Quem é você? – insisti.

Fui acometido pelo desespero de tocá-la, de erguê-la do chão e soltá-la das cordas. Mas, ao esticar os braços, notei que meus ossos se partiam; meu braço direito formava um ângulo de 45 graus e, assim que escutei o ruído do osso do antebraço sendo fragmentado, berrei de dor. Nunca havia sentido uma dor como aquela.

Por favor, salve ela – uma voz explodiu em minha cabeça novamente, fazendo meus gritos cessarem.

- Porra!!! Quem é você?! – perguntei, girando o corpo sobre o sofá e rolando diretamente no chão. O impacto de minha cabeça contra o piso de linóleo me fez despertar de vez.

Ofegante, e também com dor no local da pancada, olhei em torno de mim. A sala estava escura e fios de luz varavam a cortina, vindos dos postes da rua. Mas, definitivamente, eu estava sozinho ali.

- O mesmo sonho – murmurei, apoiando-me no sofá para me levantar. Foi então que notei que meu shorts estava molhado e que eu havia me mijado todo de dor (ou, pelo menos, da dor que achava que estava sentindo durante o sonho).

Trôpego, cruzei a sala e fui até o banheiro. Abri o armarinho e engoli dois comprimidos do analgésico que André tinha deixado.

"Tem que parar a dor", pensei, enquanto, de modo quase inconsciente, caminhava para o canto da sala onde um lençol velho cobria meu cavalete. Puxei o lençol com o braço esquerdo, deixando-o cair.

Permaneci um bom tempo olhando para a pintura inacabada de uma paisagem tropical insossa.

- Pro diabo com isto – disse, tirando a pintura do cavalete e jogando-a sobre a mesinha disposta logo ao lado, que servia de apoio às paletas e estojo de tintas. Também havia um grande pote de maionese cheio com água raz e uma latinha de thinner.

Abri o armário e tirei uma tela menor, totalmente em branco. Acomodei-a no cavalete e arrastei-me para cima do banquinho.

Fixei o olhar na tela em branco e visualizei o trabalho pronto sobre o canvas.

- Acho que tô ficando louco – eu disse, pegando o lápis e traçando os primeiros contornos.

*****

- Quer dizer que você passou a noite pintando o rosto de uma mulher com quem sonhou? – perguntou André, segurando uma xícara de chá e olhando com estranheza para uma mulher de cabelos claros cor-de-cobre que o encarava. – Por que ela tem olhar tão triste?

- Porque é assim que ela aparece nos sonhos... ou pesadelos – respondi, bebericando um pouco do café forte que fumegava na caneca que estampava a foto estilizada de Salvador Dali. – Tive que pintar, porque tava com medo de dormir o sonhar com aquilo de novo.

NOS MEUS SONHOSOnde as histórias ganham vida. Descobre agora