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- Você vai querer que eu fique em cima ou embaixo? – Bia perguntou, enquanto beijava meu mamilo esquerdo.

- Tanto faz, desde que eu não tenha que usar meu braço direito – eu disse, suspendendo o braço e sentindo uma dor aguda.

- Tá certo. Então, vou em cima de novo.

Com agilidade, ela ficou sobre mim e laçou-me com as pernas. Havíamos transado há quinze minutos, e aquela mulher ainda tinha apetite para um segundo round.

Abriu o pacote de camisinha com os dentes e envolveu meu pênis; depois, encaixou-o dentro de si. Escorreguei para dentro dela rapidamente, sem qualquer resistência.

Bia cavalgou sobre mim mexendo-se com destreza, enquanto que, esticando meu braço bom (o esquerdo), eu acariciava seus seios pequenos, cujos mamilos escuros estavam duros como duas pedrinhas.

- Vou gozar – anunciei, soltando um grunhido e relaxando o corpo sobre o colchão.

Sem dizer nada, Bia ergueu o corpo e rodou a perna no ar como se bailasse. Puxou a camisinha, e cruzou o quarto em direção ao banheiro segurando aquele troço de látex com a ponta dos dedos. Abriu o chuveiro e deteve-se lá por uns cinco minutos.

- Desculpe, acho que fui muito rápido – falei, aninhando-me sobre o travesseiro. – Não tô muito legal.

- Eu também não estaria – Bia passou pela porta do banheiro, caminhando nua em minha direção – se tivesse levado uma surra. Não sei de onde tirou a ideia de querer foder comigo logo depois de quase morrer, Turco.

Eu não era turco; meus bisavós eram sírios. Mas, como ser descendente não significa necessariamente ser alguma coisa, não me importava que Bia me chamasse de Turco – aliás, era a única pessoa no mundo que me chamava assim, e eu estava cagando para linha linhagem árabe.

Ela deitou-se ao meu lado e pousou a cabeça sobre meu peito.

- O braço ainda dói?

- Vou ter que bater punheta com a mão esquerda por um bom tempo – respondi.

- Tô falando sério, idiota! – ela ergueu a cabeça e me encarou. – Vai conseguir pintar com esse braço?

- Sou canhoto. Então, creio que não terei problemas – afaguei seus cabelos, fazendo com que se aconchegasse em mim. – Tá com fome?

- Não, só cansada. Dei aula de manhã e passei a tarde com alunos particulares. Não sei qual é a dificuldade que essa molecada tem de entender estatística.

- Bem, eu não consegui aprender estatística nem probabilidade, e sobrevivi à minha ignorância aritmética com louvor – falei. - Sou exemplo vivo de que é possível ser um asno em matemática e, ainda assim, estar de boa.

- Você não tá de boa – Bia mordiscou meu mamilo, causando-me dor. – Está quebrado e sem grana. E, ainda por cima, devendo pra um agiota.

Virei os olhos para o teto e bufei.

- Não me lembre disso – disse.

- Sabe, gatão, acho que você precisa dar um rumo na sua vida – disse Bia, enquanto enrolava os pelos do meu peito. – Arrumar uma namorada, ter uma renda fixa. Veja, não quero encher teu saco, mas tem uma hora na vida da gente que temos que assumir certas responsabilidades.

- Eu sou um artista e pinto quadros. Essa é minha vida – respondi, em aspereza. – O fato de eu ter feito algumas cagadas num passado recente não me condena ao fogo do inferno, caralho!

- Ok, ok. Só quis ser sua amiga – disse Bia, acomodando-se junto a mim.

- E você é, Bia. A melhor amiga que um cara podia ter.

Afaguei os cabelos dela até que ambos passamos para o sono.

Fora a primeira vez que tive aquele sonho, o sonho que mudaria minha vida, ainda que, naquele início de noite, eu não soubesse disso.

A imagem de uma mulher jovem, com cabelos cor-de-cobre e piercing de brilhante no canto esquerdo do nariz se materializou num cenário de breu total. Ela olhava em minha direção, mas algo me dizia que seus olhos não estavam realmente voltados para mim, e sim para algo (ou alguém) naquele vazio de escuridão.

Então, ela começou a correr; corria, ofegante, como se fugisse do demônio. Senti o calafrio correr-me o corpo, como se pudesse sentir claramente a aflição e medo daquela moça.

Tentei chamá-la, tomado por um desejo incontrolável de protegê-la. Estiquei os braços, mas era possível alcançá-la, uma vez que, correndo, seu corpo deslizava para longe de mim.

Esforcei-me para chamá-la pela segunda vez - chamá-la como e de quê, já que não sabia seu nome?! Engraçado como me lembro de estar refletindo sobre o nome da mulher com cabelos cor-de-cobre quando uma voz invadiu minha cabeça.

Salve ela.

Senti como calafrio correr meu corpo, como uma corrente elétrica. Estava gelado, com muito medo.

Salve ela – repetiu a voz.

Suspendi o corpo, sobressaltado, empurrando Bia para o lado.

- O que foi, Turco?! Teve pesadelo?

Virei-me na direção de Bia, que me encarava com espanto.

- Está suando – ela disse, passando a mão pelo meu corpo. – O sonho foi muito ruim? Você estava murmurando algumas coisas, mas não deu pra entender.

Ainda ofegante, respondi, passando a mão pela testa.

- Não foi um sonho. Foi a porra de um pesadelo do caralho...

- Tão ruim assim? – perguntou Bia, sentada na cama e procurando sua camiseta no chão, entre as cobertas. Saquei que ela estava se preparando para ir embora.

- Foi estranho - respondi, caminhando até o balcão para servir-me de uísque. – Quer uma dose?

- Não, obrigada. Tenho que dirigir e dependo da CNH para trabalhar – ela terminou de vestir o jeans e beijou-me o rosto. – Preciso ir porque acordo cedinho amanhã. Quando quiser repetir a dose, só me ligar. E, por favor, Turco, se cuide.

- Podexá. Se cuide de você, que fica pra cima e pra baixo de moto por aí – erguei o copo, sugerindo um brinde.

Bia subiu o zíper da jaqueta e pegou o capacete que estava sobre o sofá. Parando na porta, virou-se para mim e mandou outro beijo. Depois, saiu.

- Que vida de merda – pensei em voz alta, entornando o restante da bebida e esvaziando o copo.


NOS MEUS SONHOSOnde as histórias ganham vida. Descobre agora