29. Telefonema

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Anna sentiu seu coração congelar aquela tarde quando atendeu o celular. Como ele tinha achado aquele número? Não bastava o que tinha acabado de acontecer na torre, e ainda mais isso. Era impossível de acreditar, mas era a voz dele.

- Você tá em São Paulo, né? - repetiu a voz no telefone.

Anna olhou o espelho na sua mão. Ela estava tremendo muito. Na tentativa de se acalmar a menina respirou fundo e apoiou o espelho numa escrivaninha.

- Tá gostando da cidade? ME RESPONDE SUA IDIOTA! - Ela não respondia, também não conseguia desligar, estava paralisada pelo medo. A Voz dele continuava - ANNA ME RESPONDE! JÁ CANSOU DESSA DROGA DE CIDADE? ACHO BOM QUE SIM, PORQUE EU ESTOU INDO TE BUSCAR! NEM QUE EU TENHA QUE VIRAR SÃO PAULO INTEIRA DO AVESSO!

- Não. - A voz dela falhou. Ela não queria passar por aquilo outra vez - Nem ouse! - sua voz não saía mais alta que o guinchar de um rato.

- OU O QUE? VAI FUGIR DE NOVO? VOCÊ É MINHA! E VOCÊ SABE QUE EU NÃO PERCO MINHAS COISAS! E VOCÊ NÃO É EXCEÇÃO! - a voz amaçadora ficava cada vez mais alta.

Algo fez Anna desligar, ela não sabia bem o que tinha sido.

- Como? - a pergunta não saía de sua cabeça, que agora doía como se tivesse sido atingida por um tijolo.

Quase dois anos...

Ela achava que estava livre do Marcos e agora isso. Enquanto ainda pensava o
telefone tocou outra vez, ela atendeu automaticamente, sem nem pensar. 

- Anna - a voz dele agora parecia baixa e séria, ela sabia o que isso queria dizer, na verdade sentia mais medo quando ele falava assim, nunca era um bom sinal - estou torcendo pra esse número ser seu. Você sabe o que eu vou fazer se você tiver com outro.

Ela desligou depressa.

- Porquê eu atendi essa porcaria de telefone?

Mais uma vez o toque.

- Que inferno! - com as mãos tremendo mais que nunca, ela arrancou a bateria e quebrou o chip do aparelho, num misto de pavor e raiva que ela não conseguia explicar. Agora Fabrício também ia ficar em perigo quando voltasse, ou melhor, se voltasse pra Terra... 

Com as costas na parede lisa perfeita da cozinha do apartamento dele, e tremendo ainda mais de pavor, se deixou escorregar até cair no chão. O telefone desligado e sem bateria ainda estava na sua mão. O espelho ainda brilhava sobre a escrivaninha da sala numa distância de uns poucos passos dali.

Ela tinha uma certeza em mente: Marcos não blefa, e é perigoso. O que ela podia fazer?

Ela levou bastante tempo pra se sentir melhor, e ainda mais tempo pra decidir o que fazer. Ela olhou pro relógio da cozinha, uma brincadeira dela com uma nave dessas trilogias espaciais que ele tanto gostava, ela quase se arrependeu por dizer o nome errado, já que depois Fabrício a fez assistir toda a saga com ele (isso não fez Anna gostar mais dessas séries, mas agora ela sabia que o relógio era da Millenium Falcon de Star Wars)...

Mas  o mesmo objeto que a fez esboçar um sorriso com a lembrança, também a fez tremer outra vez... Ela tinha que se arrumar para o trabalho, mas como reunir coragem se o Marcos sabia que ela estava em São Paulo? E de repente outra pergunta surgiu em sua mente: Quem? Quem sabia de onde ela vinha, quem ali conhecia o Marcos, quem contou onde ela estava?

- Seja positiva Anna, só na capital tem mais de 20.000.000 de pessoas, a chance dele me achar de primeira é mínima! Não é? - por mais que estivesse com medo, ela já estava decidida (há um bom tempo) não deixar ele controlar sua vida NUNCA MAIS, assim respirou fundo e foi pro banho.

- O espelho! - finalmente uma boa idéia... ela ainda estava ensaboada, mas se enrolou de qualquer jeito e correu até o objeto que continuava brilhando sem parar. 
Anna beijou o vidro que refletia seu noivo que ainda estava perplexo com o que havia acontecido na torre, mas ao invés de tentar ajudar ou se explicar, ela preferiu fazer uma pergunta.

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