São João Cabeção

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 As paixões já foram suficientemente interpretadas:

chegou a hora de encontrar outras novas”

Guy Debord, Teoria da Deriva

 

tapete de procissão guia e desguia, não sabia?

- Olha, Jesus está com os olhos azuis – falou, orgulhosa, apontando para a imagem recém formada no chão, parte do tapete da procissão do Corpus e sangue duChrist. – Eu nem disse nada pra eles, fizeram porque sabiam ser certo – a beata falava sobre as crianças que também tinham acordado de manhãzinha pra composição do tapete – e eu sempre digo isso ao padre, que Jesus era um moreno... Quer dizer, um moreno não, né? Jesus era Moreno! De olhos azuis.

E aqui, algo que eu também sempre digo: o dia é um desastre quando começa de um jeito que não nos deixa seguir adiante. Nada de importante acontece e o que tem, é sobra do dia anterior.

            É claro que estou falando de expectativas, com a coisa toda da temporada de apreensões que antecedem grandes decisões e coisa e tal. Você se mete nisso sem perceber. As pessoas se dão o direito de darem saltos realmente grandes e arriscados, desafiando fronteiras e mostrando para todos que seus talentos poderiam se estender para além dos limites de Macuco, este amontoado de morros que não deixa ninguém escapar. Eu não me iludo, tudo passa num segundo, aqui ou lá. Então, fico com a Macuco dos sonhos e deixo o  mundo real escorrer.

            Faço isso com a cara enfiada em livros, agora é a vez da Máquina de Armas do Warren Ellis, que me possibilitou passar desapercebido da roda de beatas babando sobre o tapete de Corpus Christ, que era cuidadosamente montado por professores e alunos católicos (ou precisando de pontos), todos ali de cócoras, enfeitando a rua para que pés apressados desmanchassem tudo depois... Mas a procissão que viria mais tarde não era da minha conta.

No livro, um pouco antes, um empresário explicava as veias e tramas de informação que corriam entre os prédios de Nova Iorque, provavelmente entupindo esgotos com gordura, linha metroviárias com esperma e o wi-fi com um novo tipo de dinheiro que, muito em breve, valeria mais do que tudo (inclusive certos olhos azuis).

            Essas conexões, entroncamentos, entrelaçamentos, curvas e linhas e dobras que as ruas proporcionam já me tinham sido alertadas por Zacarias, durante uma das minhas visitas a sua casa, quando ele me apresentou seu famoso painel: um lençol pendurado na parede com fios de diferentes cores se entrecruzando, vibrando-se plenipotencialmente – ele explicava a realidade quotidiana dessa forma, como um acadêmico experimentado versaria sobre física quântica e a teoria matemática do caos.

            Curioso, paro um pouco para admirar pequenos detalhes do tapete. Não são apenas os olhos do Nazareno que contam com detalhes azuis. Para todo lado pequenas pedras coloridas formam mandalas inconscientes, fora dos dogmas católicos, mas capazes de revelar grande talento em alguns desses artistas amadores. Seriam os tapetes, as ruas, o painel entrelaçado de Zacarias e os fractais tudo uma coisa só?

            Não sei nem tenho tempo de pensar nisso, porque eu tive que acordar cedo e me mandar pra encontrar com o Furquinha, que é o meu chefe e dono do jornal, coisetal que cês já sabem. Agora que tinha sacado minha amizade fora do trabalho com o repórter novo e a dele com algumas figuras esquisitas da “comunidade” macuquense (não sou fofoqueiro, mas vamos dar nomes aos bois: Furquinha não passa dum crente desocupado, querendo proteger o próprio rabo, enquanto finge preocupação com o pobre do redator, que anda de amizades com gente como o bebum Zacarias e o trafica Pernalonga, que não é tão ruim e até ofereceu uma casa pro coitado alugar), o patrão queria a todo custo nos manter próximos de si.

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