Capítulo VI

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Tranças

          Jill Oris ainda se sentia decepcionada consigo mesma por ter falhado na Avaliação. Por uma questão, uma mísera questão, teria que permanecer em Delta pelo menos até a próxima prova, dali a seis meses. Não entendia o que havia acontecido. Tudo parecia estar indo bem até que, de repente, viu-se lembrando dos pais e toda sua concentração se dissipou; teve que comprimir os olhos para não chorar tolamente no meio da sala.

          A viagem interestelar para Aldebaran continuava se afastando dela, como um balão sendo arrastado pelos caprichos do vento. O que a reconfortava era que tinha Joe. Ele fora atencioso e carinhoso para com ela durante esses dias cinzentos impermeados de desesperança. Se negara a deixá-la sozinha, apesar de ela ter insistido veementemente nisso. Queria se afundar na tristeza até esquecer-se de tudo. Antes de Joe, era esse seu refúgio. Trancava-se no quarto e, detrás de suas lágrimas, escondia-se de si mesma e do resto do mundo. A tristeza lhe preenchia, afogando as decepções, medos e solidão. Apenas depois de ter conhecido Joe e seu jeito descontraído, objetivo e sincero, começou a realmente amadurecer.

          Ainda que reconhecesse ser de alguma forma dependente do amor dele, não via isso de forma ruim. Jill sabia que não importasse o que acontecesse, ele estaria lá por ela, de modo que essa dependência era tão somente uma extensão do vínculo único que havia entre eles. Pensando nisso, sentiu-se melhor. Não estava sozinha, afinal. Amava Joe, e ele, embora raramente verbalizasse seus sentimentos, a amava; Jill via isso claramente em seus olhos negros e brilhantes quando, achando que ela não estava vendo, ele a afagava com o olhar.

          Joe... Com o rosto apoiado na palma da mão, ela imaginava o que ele estaria fazendo naquele momento, na sala ao lado. Suas amigas, tagarelando algumas mesas da dela, haviam sentido seu ar de isolamento e, para seu alívio, resolveram manter distância. O fato é que o que ela menos desejava naquele momento era ter que usar sua máscara de Jill alegre e fútil para se misturar com aquelas garotas. Quando começou a pensar se não estaria sendo frígida demais, alguém atravessou a soleira da porta e se dirigiu à sua mesa. Era Amber.

          — Olá, Jill. — Amber disse amigavelmente. Seu rosto era pálido, sem características relevantes, enquanto os lábios não passavam de duas linhas levemente rosadas sobrepostas. Seus espessos cabelos escuros, como de praxe, jaziam desajeitados.

          — Olá... Amber.

          Sua súbita aparição após tantos dias sem ir à aula lhe causou certa estupefação. Ela ponderou se deveria se levantar para cumprimentá-lo com um abraço, mas decidiu que melhor não; não tinham essa espécie de intimidade.

          — Que houve? — perguntou Jill, enquanto Amber, sorrindo, dava a volta e se sentava à mesa detrás, que, observou ela, não era dele. Ignorou isso e continuou: — Você faltou três dias consecutivos, já estava começando a pensar se não tinha sido rebaixado... Sabe, eles nunca avisam quando isso acontece...

          Amber ajeitou-se na cadeira e fez login na mesa, que em seguida exibiu seu nome no canto, acompanhado de sua imagem tirada no primeiro dia de aula e todos os seus cadernos separados por matérias. Então, exibindo uma expressão contrita, fitou Jill.

          — Sim... — disse. — A verdade é que a Avaliação acabou comigo. Precisei tirar esses dias de descanso pra me recuperar psicologicamente antes de voltar pra escola. Donnie veio falar comigo agora há pouco, falando sobre como eu fiquei perturbado no dia. O que me lembra de pedir desculpas pra você. — Esboçou um sorriso pesaroso. — Fui um tanto estúpido, não fui? Me desculpe mesmo...

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