Prólogo

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Escutava a música do baile ao fundo, enquanto estava ancorada numa parede que dava acesso a cozinha. Ninguém poderia vê-la dali, mas ela conseguia ter uma visão de tudo o que estava acontecendo no salão.

Puxou a respiração e a soltou lentamente, enquanto abria um sorriso bobo. Seu corpo inteiro ainda estremecia e em seu estômago batiam borboletas desde que o viu entrar no baile. Isso era tudo que Andre sempre dizia ser tolo, idiota, fantasioso e que me apaixonaria por um babaca qualquer, só por acreditar que um dia aconteceria isso.

Mas aconteceu.

E ele é perfeito, exatamente como tinha imaginado em meus sonhos.

Quase não conseguia se aguentar em deixar o celular de lado e ligar para Andre para dizer que ele estava errado. Que ela encontrou aquele homem que a fazia estremecer e que seria seu príncipe encantado.

Apesar que ele diria que ela estava fazendo-o passar vergonha...

Acabou bufando com a lembrança de seu amigo de infância, o que chamou atenção do garçom, que passou por ela com uma expressão reprovadora, fazendo com que ela saísse de seu devaneio.

Cresce Mia, cresce.

Tomou uma grande respiração antes de se arrumar e voltar para o baile. Precisava ficar pelo menos até o jantar, para depois voltar para casa. Talvez conseguisse conversar com Andre ainda, caso não voltasse muito tarde.

Sentia falta de seu amigo, mesmo falando quase todos os dias pelo computador ou celular, não era a mesma coisa que estar ali, pessoalmente. O fato de não morarem na mesma cidade nunca ajudava.

Mesmo tendo sido adotada aos oito anos de idade, nunca deixou de manter contato com ele, que ainda ficou no abrigo até sua maioridade. Talvez por ter ficado doente por dias até conseguir falar com ele, seus pais viram que seria impossível mantê-la afastada da única pessoa que considerava como sua família.

Teve tanta sorte...

Não somente por ter pais que a amaram muito, mas por serem compreensivos. Alguns pais têm horror de voltar para o lugar aonde a criança foi adotada. Talvez seja por lembra-los que eles não são do mesmo sangue. Não sei. E nem sempre isso é bom, ainda mais quando a criança já entende muita coisa.

Não precisou ser auxiliada pela Instituição Viver, que era o amor e o coração de seus pais.

A instituição viver apoia jovens adolescentes que completam dezoito anos e que não estão mais sob a guarda do estado.

Infelizmente, os jovens de deixam de ter o apoio do governo e são jogados, literalmente, para viverem como conseguem. Muitos deles vão pelo caminho mais fácil, ou seja, para drogas e prostituição, pois não possuem estrutura alguma para sobreviverem numa sociedade que ignora as dificuldades que eles podem passar.

A Instituição apoia estes adolescentes, dando uma estrutura educacional, emocional com ajuda de psicólogos e voluntários e ainda, financeira. Estes jovens aprendem a trabalhar e se manter, sem ajuda de outras pessoas, para somente assim, se desligarem da Instituição.

A ideia é dar uma estrutura mínima para que eles possam ter opção de sobrevivência. Muitos jovens não são adotados quando pequenos e não é certo deixá-los sem estrutura nenhuma para quando atingirem a maioridade.

Saiu de seus pensamentos para tentar se concentrar na conversa do senhor Chiavantti, um dos maiores colaboradores da Instituição, com os demais empresários próximos, que não paravam de falar sobre alta e baixa da bolsa de valores, ou até mesmo reclamar dos programas do governo e o quanto isso estava afetando seus negócios.

Não estava interessada em nada disso. Apenas acenava concordando com uma coisa ou outra que todos pareciam estar de acordo e sorria, quando necessário. Assim que tinha oportunidade, procurava pelo salão seu príncipe, que parecia ter desaparecido depois da primeira vez que o viu.

Só falta ele ter virado abóbora.

Estava louca para ir para casa tirar aqueles saltos. Não importa quanto um sapato de salto é confortável quando você o compra. Ele sempre detonará seu pé a partir do momento que tiver que ficar em pé por mais de uma hora. E no meu caso, já são mais de três.

Assim que teve oportunidade, se desculpou com o grupo e saiu para pegar mais uma bebida e zanzar pelo salão quando acabou trombando com alguém. Quando se apoiou para não cair, sua mão sentiu músculos firmes e quentes, que fizeram com que seu rosto esquentasse na mesma hora.

— Ouuchh... me desculpa — se afastou dele e começava a se desculpar melhor, por ser tão desastrada, quando ficou paralisada ao ver quem era.

Seu príncipe.

Ele é exatamente como ela havia sonhado quando criança: alto, cabelos pretos que pareciam uma noite sem estrelas, milimetricamente arrumados, olhos azuis cercados por cílios marcados e um sorriso que a fazia estremecer.

Acabou soltando um suspiro ruidoso que a fez se sentir envergonhada por sonhar tão alto, ainda mais na frente dele.

— Não, por favor. Não peça desculpa. Por incrível que pareça, foi uma das melhores coisas que aconteceram comigo esta noite — sua voz tranquila e baixa fez meu corpo todo estremecer.

Queria controlar a reação de seu corpo para ele, mas a empolgação estava impedindo disso acontecer. Se ele fizesse um pedido de casamento naquele momento, diria que aceitava sem pensar duas vezes.

Meu Deus, mulher! Onde está sua dignidade!

— Eu... — tentou falar, mas ele colocou o dedo em seus lábios, a impedindo. Não demorou muito para que ela sentisse um formigamento aonde ele havia tocado. Ele começou a fazer carinho por seu rosto e a sensação é tão boa que não demorou muito para fechar os olhos. Talvez ele tenha visto isso como um convite, pois tão logo sentiu seus lábios nos seus.

E foi como o mundo ao redor tivesse desaparecido. A bendita borboleta no estômago estava ali e nunca teve um beijo tão perfeito.

Seu verdadeiro príncipe.

Neste momento, seu coração não poderia ter batido mais forte. Parecia até mesmo que sairia pela garganta.

— Eu preciso saber seu nome linda... — ele perguntou.

Estava tão absorta em todos os sentimentos que sentia naquele momento, que sequer prestou muita atenção no que ele disse. A única coisa que conseguia pensar era: Uau. Que beijo! Simplesmente uau!

Depois que percebeu para onde estavam indo seus pensamentos, bem à frente dele, sentiu seu rosto ficar vermelho. Só então conseguiu entender o que ele perguntou.

— Maria, mas todo mundo me chama de Mia — respondeu baixo enquanto ainda buscava se recompor.

— Humm. Nome delicado, como a dona — sorrindo novamente, ele a segurou e começou a puxá-la para saída, longe de todos do salão.

— Aonde você pensa que está me levando? Você é louco? Não posso sair assim! Além disso, sequer sei seu nome! — Tentou sair de seu aperto, mas foi inútil. Ele a segurava cada vez mais forte. Depois de ela soltar um grito abafado, ele parou de andar a puxando para ele. Tão perto que ficaram a centímetros de distância.

— Eu me chamo Eduardo. Qualquer um desta festa pode me reconhecer facilmente e eu não seria louco de fazer qualquer coisa que pudesse destruir não só você, mas, principalmente, o império que estou construindo — não havia dúvidas sobre o tom de raiva em sua voz, mas logo ele sorriu, como se nada tivesse acontecido. — Eu não me importo que me vejam tirando você deste lugar. Acho ainda melhor. Assim todos saberão que você é minha e não há possibilidade alguma de eu a deixar escapar. — Ele deu-lhe um beijo forte, agressivo, como se realmente quisesse marcá-la.

Não sabia o que pensava na hora. Talvez fosse nada além do quanto poderia ser bonito ele fazer aquela cena, como se fosse seu príncipe que apareceu para buscá-la, como se tivesse a procurado durante sua vida toda.

E assim ela foi com ele, encantada por tudo aquilo.

Ela só não sabia que aquele príncipe poderia virar um sapo e que o pesadelo estava prestes a começar.


O tipo certo de amor (DEGUSTAÇÃO)Leia esta história GRATUITAMENTE!