Um Dia... (um prequel de Mudanças)

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***PLÁGIO É CRIME***

Um dia...

L. L. Alves

Um prequel de Mudanças

A garota roía as unhas que já estavam maltratadas e irritadas. Andava de um lado para o outro, as pernas bambas e confusas com a direção incerta que o cérebro estava lhe informando.

“Ele estava brincando comigo”, Verônica pensava engolindo em seco uma, duas, três vezes. “Era mentira. É uma pegadinha das meninas, isso sim. Só pode! E eu caí!”

Ela se recusava a chorar, mas não moveria um centímetro ainda. Seu orgulho dizia que devia ficar até o fim do intervalo, porque, afinal de contas, ele falara com ela. Ele! Será que seus colegas tinham sido tão maldosos a ponto de enganá-la assim?

– Oi.

Seu coração pulou, chegou à garganta empurrando todos os órgãos no meio do caminho, ansioso e dançando de felicidade; e Verônica não conseguia falar, sequer balbuciar qualquer palavra.

– O que foi: o gato comeu sua língua?

Era ele. Jonatas, o astro da escola. Em toda escola havia um, ela sabia, porque era assim que tinha que ser. Os estudantes pediam por isso: um modelo de beleza e charme a seguir. E ela sabia que Jonatas era o modelo desde o momento em que chegara ali. Ele era O cara. O mais forte, o mais engraçado, o mais bonito, o mais paquerador...

As garotas suspiraram e encaravam-no o recreio todo, tentando imaginar se um dia ele falaria com elas, olharia para elas ou daria seu sorriso mais sedutor. Nem metade delas sequer conseguia ser vista por ele. A maioria preferia a distância – apenas apreciar o aluno alfa, em toda sua magnitude, e estavam muito bem, obrigada. Outras, no entanto, passavam horas no banheiro, chorando abraçadas às suas melhores amigas, perguntando por que ele a ignorara, por que ele tinha que ser tão bonito e ter roubado seu coração. Elas se achavam feias, desengonçadas e nunca a maquiagem era boa o suficiente; as roupas eram chamativas o suficiente...

Então, anos depois, o aluno alfa era apenas uma vaga lembrança. Elas comentariam com seus filhos ou sobrinhos como tinham sido bobas em chorar por ele – porque, afinal, o aluno alfa nunca as olharia; e, se o fizesse, não valeria a pena todo o drama. Mas o que podiam ter feito naquela época?, perguntariam a si mesmas. “Nada”, responderiam a seguir. Elas tinham sido assim e nunca saberiam explicar por que exatamente.

Menos Verônica, é claro. Verônica teria outra história a contar. Uma história mais emocionante e difícil. Uma história que com o tempo seria deixada de lado, mas nunca esquecida.

Não hoje. Hoje a garota apenas ouvia Jonatas e engolia o nervosismo. Seu corpo todo tremia, como se fosse uma parte separada dela, e sua mente tentava voltar a funcionar direito. Seu coração ainda estava na garganta, proibindo-a de falar.

Ele levantou as sobrancelhas, esperando. Estava sério – uma seriedade curiosa. Seus cabelos loiros eram chamativos, lindos e sempre bem cuidados. Que garota ali não queria uma oportunidade – que fosse uma vez na vida – de passar a mão neles e sentir aquela maciez angelical?

– Oi – ela disse, por fim, sua voz fraca e tremida. “Como eu sou idiota! Burra, burra, burra! Não consegue falar direito com um garoto? Qual o seu problema, Verônica?”.

– Ah, redescobriu o dom da fala?

Seu tom era de deboche, como sua expressão, mas Verônica apenas via aquele meio sorriso, o umedecer de lábios, o rosto belo e o corpo musculoso comparado a sua pequenez.

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