12 - As Outras - Parte Final

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- Você não deveria tê-la trazido para cá. Foi estupidez. - Lura adverte Róru, enquanto observa faminta aquele seu mundo de cima do topo de uma colina, com os braços cruzados. Ela consegue ver o riacho que mais ao sul corre cortando e desenhando a paisagem de elevações e depressões cobertas, ora por árvores, ora por simples grama.
- Eu já disse que não conseguíamos falar com você e pareceu o certo a se fazer. - Após essa explicação de seu último na hierarquia trina de auxiliares, Lura lhe devolve um olhar inflamado.
- Parecia certo trazê-la para você. - Róru complementa e enxuga o suor da testa pincelada de lama. Sujeira é fruto de trabalho duro.
- De qualquer forma, eu já sei o que vou fazer. Vou pôr a Alice na câmara de recondicionamento - Róru segura a expressão do rosto para evitar que a sua  reação interna ao ouvir esta notícia seja contornada em sua face - e usá-la sobre essa Hannah.
Róru acena com a cabeça para transmitir normalidade diante dos fatos. O bom é qud consegue redirecionar o seu olhar frágil para outra movimentação. Ruma vem subindo o morro ao leste com guardas com suas típicas capas azuis balançando ao seu redor. A auxiliar ressuscitada e a nova serva dEles vem embalada em vestes brancas com uma capa e um capaz. Contudo, algo é mais chamativo: todos estão com as armas circulares nas mãos. Lura descruza os braços e tensiona o corpo. Algo está errado. Ela olha de soslaio para o subordinado ao lado, à espera de alguma coisa nele que lhe explique o que está para acontecer. Ela, sendo quem é, decide por ficar com a sua conhecida pose impassível.
   Ao colocar pé após pé, medrosos pelo o que há de vir a partir da escolha de sua possessora, Ruma marcha colina acima. A imagem de seu pai tossindo sangue, com o medo da morte em seu olhar, não sai de sua cabeça. Morte. Ela se lembra da sensação do esvair da vida repentino e feroz, molhado de sangue quente escorrendo pelo seu pescoço e corpo. Como é bom estar viva. Vida. Respira fundo: se rendeu Aqueles que lhe devolveram a existência. Eles lhe mostraram o seu propósito naquela sala com Hannah. Recorda-se das visões que teve. Ruma no cume de uma montanha e no horizonte um pôr-do-sol, nuvens cinzentas e fartas, céu alaranjado. Muitos outros montes triangulares ornamentando a paisagem. Uma mão toca a sua. O seu pai sorri pacífico enquanto segura a sua mão. Uma palavra sussurrada por alguém, algo, provavelmente, por Eles: imortalidade. Ruma sente que sorri e essa é a melhor sensação que tem há tempos. Uma de nós; imortal. A voz outra vez. Algo quente lhe toca o rosto. Uma lágrima, não de luto, mas de contentamento. Satisfação. Propósito. Ruma viu muita mais naquele tempo sob o efeito do poder dEles, mas eram esses fatos que lhe moviam até o ponto de ficar face a face com a sua líder. Os seus soldados convertidos, com olhos brancos, param atrás de sua nova comandante.
- Lura, eu sou grata...
- Ruma, o que está acontecendo? - Róru.
- Eu sou grata, mas você precisa sair daqui. Eles vão te matar se você ficar. Eu não quero isso. - Ruma continua ao ignorar a pergunta de seu colega.
- Eles, Ruma? - Lura pergunta furiosa mordendo o lábio inferior.
- Aqueles que controlaram Anne para matar Dulan, que me ressuscitaram...
- Ressuscitaram?
- Eu não planejava te contar. Não sei por qual motivo, medo, talvez... Eu ainda tentava processar, entender tudo o que tinha acontecido.
- Você morreu, então.
- Sonia instigada pela Anne tomada por Eles... Ela se transformou em um lórksel
e voou no meu pescoço quando tentei impedi-las de chegarem até Hannah. Aliás, ela, tomada por Eles, que me trouxe de volta à vida.
- E? - Lura lutando para ocultar o espanto que sentia no estômago.
- Agora faço parte da missão dEles. Quem se colocar contra, irá morrer. Assim como Dulan que iria contar toda a verdade sobre as Sete para elas. Aliás, só eu sei disso. Nem Hannah. Porque agora sou um dEles. E nós ordenamos que você saia daqui o mais rápido possível. Eu sou a nova líder dos Destruidores. E muito mais, muito mais. - Ruma degusta do prazer do desfazer da sensação de impotência diante de todas dificuldades da sua vida. Tudo começa a fazer sentido e Eles prometeram, com a voz suave como a brisa, no cume daqueles solenes montes: explicaremos tudo sobre você e o universo; tudo é o universo, tudo é você.

Contra as armas erguidas, Lura pede o apoio de Róru em seu olhar ao mesmo tempo que mede o seu auxiliar para entender se ele também faz parte desse plano. Róru compreende muito bem os olhares.
- Ruma, o que é isso? Você não pode... - Róru.
- Róru, hoje eu sei os seus reais motivos para estar aqui. Não seja falso. Você não está aqui pela Lura. - Ruma argumenta apaixonada. Ele coloca compaixão pela sua líder, apesar de ter secretas intenções dissonantes com as dela.

Ruma dispara na perna esquerda de seu colega que cai, gritando de dor.
- Saia daqui, correndo. Agora.

Pressionada e cercada de armas carregadas, Lura repara no homem, que ela julgava ser o mais fiel de sua equipe, derrubado, rolando em dor. Ela calcula todos os novos dados do jogo em sua mente e sai em passos rápidos mas confiante em direção ao oeste. Enquanto vai, deseja perfurar a Ruma que encara com uma úlcera desejosa de vingança. Lura odeia o sentimento que lhe espreita, como se ela fosse um animal indefeso, fácil demais de se maltratar. Ah, mas, eles não perdem por esperar. Então, Lura sente tomar conta de seu ser, a certeza de que é fênix, assim como sempre disse seu pai, e como discípulo, seu filho.

***

O vento fresco bate no rosto de Hannah, que, agora livre, anda em direção às cinco das Sete reunidas em frente às cabanas.
- Menina! - Anne reage transformando a sua surpresa em sarcasmo.
- Hannah, você está bem? - Olívia se aproxima da garota percebendo os seus machucados.
- Todas estamos. Estamos livres. - Ela sorri iluminada. Contudo ainda resta uma sombra em sua alma: estou mesmo certa? No caminho certo?
- Cadê a Ruth? Cadê a minha mãe? - Ela acrescenta e adiciona em tom de conserto. - Ela também precisa ouvir o que vou dizer.
Sonia acena ligeiramente com a cabeça e vai chamar Ruth. Ela encontra a Sete curandeira sentada à beira do riacho, aprofundada em consternação e frustração.
- Que foi? - Ela pergunta ao jogar um pedregulho de volta na água ao perceber a presença de sua companheira Sete.
- A sua filha te chama. - Sonia deixa um sorriso lhe subir ao olhar.
- Droga! - Ruth assim se manifesta, mas nunca amaldiçoou a vida com uma felicidade tão escrachada no rosto.

***

- Vamos sobreviver, meninas. Somos extremamente fortes juntas. - Martha discursa para inúmeras garotas dentro de uma caverna iluminada por uma moça, com uma burca, que mantém uma chama enorme acesa saindo de suas duas mãos.
- Somos as Sete!
- Somos as Sete! - Elas respondem.

E Alice ainda está na escuridão com o vídeo de seu irmão rolando em loop.

A porta se abre.

***

PESSOAL, ESTAMOS NOS ÚLTIMOS CAPÍTULOS!!! PREPAREM-SE - OU NÃO! ;)

SETE - Volume I [COMPLETO]Where stories live. Discover now