Capítulo V

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Sem Encrenca

          "And in your waiting hands

          I will land

          And roll out of my skin

          And in your finals hours I will stand

          Ready to begin"

          A música reverberava pelo quarto de Donald Trable. O estéreo no centro do quarto, agora consertado, funcionava à plena intensidade, pulsando como um coração humano no ritmo alucinado da guitarra. A bagunça, contudo, continuava no mesmo lugar, e um observador astuto diria até mesmo que ela crescera.

          Era manhã e havia um sutil cheiro de pizza de camarão estragada no ar. Donnie, vestindo somente uma cueca branca, estava sentado na mesma mesa em que ele e Amber, há três dias, haviam decidido tomar a droga chamada Min-D, lendo um pequeno manual de como se portar numa ascensão de área cognitiva. A leitura, porém, não passava de um escape para os seus pensamentos que, desde o dia da Avaliação, não cessavam de focalizar Amber.

          Donnie estava preocupado. Além de ter faltado às últimas aulas, o amigo não respondera nenhuma de suas mensagens e chamadas, e quando fora visitá-lo em casa, na noite retrasada, o pai dissera que ele havia saído no início da manhã, sem prover explicação alguma. Angustiado, disse que não tinha a mínima ideia do que o filho estaria fazendo.

          Antes de ir embora, Thomas Kreyzer, com ar um tanto febril, insistiu em mostrar-lhe um holoretrato de um garoto de olhos claros que lhe pareceu, à primeira vista, perturbadoramente familiar. Vasculhando a memória, contudo, não encontrou nome ou local onde pudesse ter conhecido tal pessoa. Despediram-se então e Donnie voltou para casa, esquecendo completamente o holoretrato, mas sem parar de se perguntar onde o amigo poderia estar.

          Bocejando, ele se levantou da cadeira e atravessou o quarto. Desligou o estéreo, que se apagou com um zumbido, e sentou-se na cama. De debaixo do travesseiro, puxou um controle, com o qual ligou a televisão. A imagem surgiu nítida e brilhante na parede do outro lado do quarto. As notícias falavam de outro assalto a uma fábrica de drogas que dera errado. Incontáveis mortos, feridos e desaparecidos. Ele pensou que aquilo, de alguma forma, estava se tornando comum.

          Após verificar o horário, Donnie imediatamente saltou da cama. Vestiu então as primeiras roupas que suas mãos alcançaram, espalhou o gel superfixador nos cabelos espetados e jogou a mochila por sobre um ombro. Antes de sair do quarto, seus olhos relancearam no holoretrato ativado na cabeceira de sua cama, espremido entre duas garrafas de plástico biodegradável. Na imagem tridimensional, ele e Amber estavam sentados na arquibancada de um estádio, rodeados de pessoas exultantes, observando, com sorrisos largos, uma partida de eSport. A perspectiva de talvez não ver o amigo antes de, naquela tarde, partir para Gama, entristeceu-o como poucas coisas seriam capazes.

          Ele estará lá hoje, disse para si mesmo, tenho certeza.

*

          Assim que pressionou o polegar no scanner de entrada da escola, a roleta piscou do vermelho para o verde e o bloqueio de metal liberou sua passagem.

          Aquilo era interessante.

          Todas aquelas pessoas olhando para ele e cochichando.

          É claro, alguém subindo de classificação era sempre motivo de exaltação para todos, e certamente o diretor da escola faria a maior propaganda possível daquilo a fim de aumentar sua cota de matriculados e engrossar seu bônus anual (que, por sinal, já era bem gordo). Até o fim do ano, sem dúvida, seu nome estaria grifado em grandiosas letras no mural de honra da escola, junto ao de Carlos Zwift e Jinna Joyce, os únicos outros estudantes daquela escola que já tiveram o mesmo destino. Ainda assim, ser o centro das atenções daquela forma era um tanto desconfortável. Normalmente, ele poderia enfiar a mão entre as coxas e se coçar sem pudor. Agora, no entanto, isso parecia impossível. O que as garotas pensariam se o vissem desse jeito? O herói da escola e futuro espião telepata coçando o saco como um animal sarnento. Não, não, não. Seria melhor se esgueirar até o banheiro e fazer isso lá.

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