Encontro

42 9 7
                                                  

Nicolas observava sua mãe discutir com o homem que bateu no fundo do carro deles na saída do estacionamento do supermercado. O menino havia escapulido do assento sem ser percebido, e estava entediado pela disputa sem fim dos adultos para saber quem estava mais errado, e como o conserto do que a leve colisão causou seria pago.

Agarrado ao saco plástico, onde seu ovo da páscoa estava aninhado, Nicolas se distraiu observando as outras pessoas, que caminhavam tão apressadas que nem desejavam bom dia umas para as outras. Pensou que elas talvez não desejassem mesmo que tivessem tempo.

A atenção do menino foi capturada quando ele avistou um cachorro correndo para um canto do estacionamento onde fazia sombra. Os pés ligeiros foram naquela mesma direção sem demora, deixando para trás as vozes alteradas dos adultos. Ele só brincaria um pouco com o cachorrinho.

Alcançando o lugar, tudo que Nicolas queria era enterrar os dedos no pelo marrom do animal e acarinhá-lo. Sua mãe não aprovaria tal coisa, no entanto; já o tinha alertado que animais de rua podem transmitir doenças, mas aquele tipo de alerta lhe escapava da memória quase sempre.

Lembrando-se de Carolina, que ainda devia discutir fervorosamente como a boa advogada que era, Nicolas levantou os olhos, finalmente livre da distração do cachorro, para notar onde estava. Percebeu um homem sentado sobre pedaços de papelão alimentando o animal com dedos sujos.

— Bom dia, senhor. – O menino cumprimentou com a voz aguda, e logo ficou acanhado com a expressão de surpresa do velho. – Eu não tinha visto o senhor aqui quando cheguei mais cedo.

Nicolas recordou o trajeto que fizera com sua mãe até o mercado. Tinha certeza de que ele e Carolina deram algumas voltas por todo estacionamento até encontrar uma vaga, e aquele pedaço não havia ficado de fora. Depois de uma risada rouca, como se a voz do velho fosse pouco utilizada ultimamente, Nicolas foi respondido.

— Tudo bem; dificilmente as pessoas me veem, garoto.

Arregalando os olhos, o menino se aproximou sem medo algum, curioso sobre o homem.

— Não te veem? O senhor tem um superpoder ou algo assim?

— Mais ou menos. – Sorrindo com os lábios selados, os olhos castanhos se enrugaram.

Ainda mais interessado, Nicolas sentou ao lado do novo amigo, que se apressou em afastar os pertences, roupas e cobertores que estavam espalhados por ali. O menino arriscou fazer carícias breves na cabeça do cachorro enquanto perguntava ao homem sobre o superpoder da invisibilidade.

— Não nasci assim, meio invisível aos olhos de todos. Fui me tornando deste jeito ao longo da vida. – Fez uma pausa, com as lembranças da juventude o invadindo. Mas ele sabia que histórias tão tristes não devem ser contadas para um ouvinte tão inocente. – A maioria das pessoas não me enxergam, só algumas como você que são capazes de me notar.

Nicolas sentiu-se importante e se aprumou, inflando o peito com orgulho. Mas a satisfação inicial logo deu lugar à dúvida e à confusão.

— Não é um pouco solitário viver assim? Quer dizer, ficar invisível é legal, mas não o tempo todo. – Argumentou, pensando nos super-heróis que conhecia, e como os poderes deles às vezes os afastavam das outras pessoas e se tornavam motivo de tristeza.

— Não tenho muita escolha.

O assunto pareceu encerrado. Nicolas refletia sobre as palavras do velho enquanto o cachorro lambia sua mão e farejava, aproximando-se do ovo da páscoa que o garoto ainda segurava firmemente junto a si. O saco plástico se abriu para o cachorro que fuçava para lá e para cá.

— Veio comprar isso?

— Sim. Minha mãe me deixou escolher este aqui, vem com um brinquedo incrível. – Nicolas respondeu animado.

À Sombra (conto)Onde as histórias ganham vida. Descobre agora